Por que os homens resistem tanto a buscar ajuda?

Dra. Lidiane Silva – Médica com pós-graduação em Psiquiatria Geral, Perita Judicial e professora universitária

Segundo dados do Ministério da Saúde, os homens vivem, em média, sete anos a menos que as mulheres. E isso não se resume ao Brasil: a Organização Mundial da Saúde destaca que a negligência com a própria saúde afeta o público masculino ao longo de diferentes gerações e culturas. Os números são ainda mais alarmantes quando se trata da resistência em relação a tratamentos psicológicos.

No entanto, estudiosos defendem que a campanha anual do Novembro Azul pode servir como gatilho para que os homens, além dos cuidados com a saúde da próstata, sejam incentivados a estender essa atenção à saúde integral, inclusive o bem-estar mental. Isso porque um dos fatores que dificultam a busca por esse atendimento está relacionado a bloqueios psicológicos, bem como a estereótipos em torno da masculinidade.

Para entender melhor como ajudar a transformar essa realidade tão prejudicial à qualidade de vida do homem, ouvimos a Dra. Lidiane Silva, médica com pós-graduação em Psiquiatria Geral, Perita Judicial e professora universitária, que ressalta a importância do cuidado com a saúde mental masculina.

Mania de Saúde – A maioria dos seus pacientes é formada por homens ou mulheres?

Dra. Lidiane Silva – Quando olhamos para a população em geral, as mulheres ainda procuram mais atendimento em saúde mental, tanto na rede privada quanto na rede pública. Mas a minha realidade no consultório mostra que esse cenário está mudando. Recebo muitos homens para tratamento, e percebo que eles estão chegando cada vez mais, tanto sozinhos quanto acompanhados pela esposa.

Mania de Saúde – Então o que pode favorecer esse primeiro passo é o apoio familiar, ou também são necessárias mais campanhas, ou algo interno?

Dra. Lidiane Silva – Pela minha experiência com pacientes homens, os três caminhos são importantes, e um não substitui o outro. Campanhas como o Novembro Azul ajudam a tirar o assunto da sombra. O apoio familiar também faz muita diferença, desde que a conversa aconteça sem cobrança ou acusação. Uma frase simples como “tenho te visto diferente e quero te ajudar” abre mais portas do que qualquer sermão. Mas o que sustenta o tratamento é a decisão interna.
Mania de Saúde – Geralmente o homem busca esse apoio quando chega a que ponto?

Dra. Lidiane Silva – Os motivos que mais vejo no consultório são crise no casamento ou separação, problemas no trabalho, dificuldades financeiras, uso de álcool que saiu do controle ou algum episódio que assustou a família. Na maioria das vezes, o tratamento poderia ter começado bem antes, evitando quadros mais graves.

Mania de Saúde – O que ainda impede muitos homens de cuidar da saúde mental?

Dra. Lidiane Silva – O estigma ainda é a principal barreira. Existe o medo de parecer fraco, de ser julgado no trabalho ou de perder o respeito dentro de casa. Muitos homens também não aprenderam a nomear o que sentem. Eles costumam chegar pela urgência, raramente pela prevenção. O homem não sofre menos. Ele historicamente sofreu em silêncio. Basta lembrar que, segundo o Ministério da Saúde, entre 2011 e 2016, 79% das pessoas que morreram por suicídio no Brasil eram homens. E para quem estiver em sofrimento intenso, o Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional e prevenção do suicídio de forma gratuita e sigilosa pelo número 188.