
Quando se pensa em dificuldade para engravidar, a sociedade tende a acreditar que o problema é sempre feminino. Mas não é bem assim: 30% dos casos se devem a fatores femininos e 30% a fatores masculinos, enquanto os demais envolvem causas associadas aos dois ou sem explicação aparente. Quem nos faz esse alerta é a médica ginecologista Dra. Rachel Tavares, especialista em reprodução assistida e infertilidade conjugal. Com vasta experiência na área, ela aborda os fatores envolvidos na infertilidade e apresenta as opções de tratamento.
Mania de Saúde – O que deve ser avaliado quando se fala em infertilidade?
Dra. Rachel Tavares – A infertilidade é uma questão do casal. A investigação, portanto, tem que ser feita de forma conjunta. Na mulher, avaliamos a idade, a reserva ovariana, a ovulação, a permeabilidade das trompas, que são as tubas uterinas, além de verificarmos as condições do útero. Também é necessário investigar se a paciente tem endometriose, se já fez cirurgia pélvica, se há alterações no ciclo menstrual, se tem alguma alteração hormonal, problemas de tireoide e outras condições de saúde que possam interferir na fertilidade. No homem, a principal avaliação é o espermograma, que analisa a quantidade e a qualidade dos espermatozoides. Em alguns casos, deve-se investigar a parte hormonal, fazer análise genética, bem como exame para avaliar os testículos. Mas existem outros fatores que interferem na fertilidade.
Mania de Saúde – Quais são eles? O que os homens precisam saber?
Dra. Rachel Tavares – Alguns acham que, por já terem filhos, não enfrentarão problemas de fertilidade. Mas a fertilidade masculina sofre alterações ao longo da vida e é influenciada por fatores como idade, exposição ambiental, alimentação, doenças adquiridas, alterações hormonais, uso de medicamentos, além de infecções que possam comprometer a produção e qualidade dos espermatozoides. Tabagismo, obesidade, uso de anabolizantes ou testosterona, exposição a agentes tóxicos, consumo de álcool, sedentarismo e atividades físicas intensas também podem influenciar a fertilidade masculina, que não está relacionada à libido ou à masculinidade. O homem pode ter vida sexual ativa e, ainda assim, ter problemas de fertilidade.
Mania de Saúde – Como tratar a infertilidade do casal?
Dra. Rachel Tavares – As opções de tratamento dependem de vários fatores. A abordagem é sempre individualizada, considerando a causa da infertilidade, a idade da mulher, a reserva ovariana, o tempo de tentativas e se já foi realizado tratamento de baixa complexidade. O tipo de tratamento depende dos parâmetros do sêmen, da qualidade dos espermatozoides e do objetivo reprodutivo do casal, como o número de filhos desejado. Uma das técnicas mais conhecidas é a fertilização in vitro (FIV), em que o óvulo é coletado depois de uma estimulação ovariana na paciente, enquanto o sêmen é coletado do homem. O óvulo e o espermatozoide são fertilizados em laboratório e, na sequência, há um crescimento desse embrião, que será acompanhado até chegar à fase de transferência. Então, fazemos o preparo do endométrio da mulher e transferimos o embrião para o útero. Embora a FIV seja uma das principais técnicas de tratamento da infertilidade, ela não é indicada para todos e nem sempre é a primeira opção. A FIV é indicada principalmente em casos de fator masculino grave, endometriose, paciente com idade avançada ou com obstrução das trompas. Mas existem também outras opções.
Um exemplo é a injeção intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI), que é bem parecida com a fertilização in vitro. A diferença é que, na FIV, o óvulo e o espermatozoide são fertilizados em laboratório, mas de forma espontânea. Já na ICSI, um espermatozoide é injetado diretamente dentro do óvulo. Essa técnica geralmente é utilizada quando há um fator masculino muito grave, sendo uma indicação mais específica. Mas também há a inseminação intrauterina, coito programado e outras técnicas de baixa complexidade. A escolha depende do casal, da idade da paciente e do tempo de infertilidade. Como essas técnicas podem apresentar resultados inferiores aos das técnicas de alta complexidade, como a FIV, em alguns casos optamos por esta última. Mas lembrando que a FIV não é a única opção e nem sempre é indicada para todos.
