
Todo diagnóstico de câncer gera preocupação para o paciente e sua família. Quando se trata de tumor de pâncreas, essa apreensão é ainda maior, pelo histórico de letalidade associado à doença. Mas o avanço obtido nas técnicas cirúrgicas, junto aos cuidados especializados no pré-operatório, vem mudando a forma de tratar o câncer de pâncreas, proporcionando melhores resultados e uma recuperação menos traumática para o paciente.
A fim de abordar o tema neste Novembro Roxo, mês de conscientização sobre o câncer de pâncreas, ouvimos o cirurgião oncológico Dr. Jonatha Frazão, que é especialista em oncologia digestiva e cirurgia robótica. Ele explica o que o paciente e os familiares precisam saber em caso de suspeita da doença. “É muito comum ver as pessoas apreensivas com esse câncer, porque ele ainda é um dos mais agressivos e complexos. Mas o importante é que hoje temos recursos bem mais avançados para tratar a doença e melhorar a sobrevida dos pacientes, sobretudo quando a estratégia terapêutica é definida corretamente desde o início”, afirma Dr. Jonatha.
O alerta do cirurgião não é gratuito. Afinal, mesmo com mais informação disponível, muitas pessoas ainda desconhecem os caminhos a seguir quando há suspeita da doença, cujos sintomas incluem icterícia (pele amarelada), fezes claras, urina escura, coceira, perda de peso, entre outros. “É fundamental buscar um especialista justamente pela especificidade da doença. Isso porque, diferente do câncer de cólon, que pode ser prevenido com a retirada de pólipos durante a colonoscopia, o câncer de pâncreas não possui um método equivalente. Isso reforça a necessidade de identificar fatores de risco e acompanhar pacientes com predisposição à doença, como aqueles com mutações genéticas ou histórico familiar, além dos que apresentam fatores adquiridos, como pancreatite, tabagismo, sedentarismo, consumo de álcool e obesidade”, disse.
Segundo Dr. Jonatha, tomografia e ressonância podem ajudar a identificar lesões císticas no pâncreas. Dependendo das características, elas precisam ser melhor investigadas e até mesmo operadas antes que possam evoluir para um tumor. “Tomografia e ressonância são exames importantes, mas não fazem a biópsia da lesão. Em alguns casos, podemos indicar diretamente a cirurgia. Em outros, é necessário realizar uma biópsia guiada por exame de imagem, por radiologia intervencionista ou por ultrassonografia endoscópica. A partir dessa investigação, avaliamos a necessidade de tratamentos antes da cirurgia, como quimioterapia ou quimioterapia associada à radioterapia. Existe, portanto, uma série de condutas a serem consideradas para definir a estratégia mais adequada para cada caso”, destacou.
Já a cirurgia de pâncreas, como lembra o especialista, possui um alto grau de complexidade, às vezes levando 7 ou 8 horas para ser realizada. “Isso significa que o paciente precisa estar bem para ser operado. Sendo assim, avaliamos a parte metabólica junto com nutrólogo ou endócrino, fazemos um plano nutricional, uso de suplementos, fisioterapia, treinamento respiratório, verificamos a parte cardiológica, a fim de preparar o paciente para a cirurgia”, diz Dr. Jonatha, mencionando um dos grandes avanços do tratamento. “A cirurgia robótica tem mudado a recuperação dos pacientes e hoje está acessível em nossa região. Em vez de um corte extenso, são feitas pequenas incisões por onde o robô é introduzido, tornando a cirurgia menos traumática, além de favorecer uma recuperação mais rápida”, frisa o cirurgião.
Ele exemplifica citando dois casos recentes. “Há pouco tempo, fizemos uma cirurgia de cabeça de pâncreas em uma paciente com mais de 60 anos. Durou seis horas e foi por via robótica. Ela teve alta em menos de 4 dias, andando, comendo e evacuando normalmente. Também operamos uma paciente de 22 anos, com um tumor de cauda de pâncreas, que teve alta em menos de três dias. Tudo isso porque houve uma estratégia de tratamento muito bem elaborada. O pâncreas é um órgão muito complexo, que exige muita investigação. Justamente por isso, buscar especialistas na área e definir um plano de tratamento faz toda a diferença para o resultado final”, conclui Dr. Jonatha, que acaba de participar de um congresso em Singapura, onde apresentou um trabalho comparando diferentes abordagens para esse tipo de tumor.
