Mês dedicado à profissão é uma oportunidade para discutir os desafios que estão adoecendo médicos país afora
Recentemente, o mercado editorial brasileiro foi surpreendido com uma biografia de um dos escritores mais famosos de todos os tempos: João Guimarães Rosa. Uma das grandes revelações do livro foi mostrar a dificuldade vivida por Rosa quando se tornou médico e precisou passar alguns anos clinicando pelo interior de Minas Gerais. Apesar de se compadecer com tantos enfermos, em sua maioria humildes, muitas vezes sem poder custear os atendimentos, Rosa revelava a amigos e parentes a dificuldade de dar conta daquela rotina.
O escritor sentia na pele os desafios de cuidar de tantos doentes e não ter os recursos necessários para garantir um melhor atendimento. Quando Rosa voltava para casa depois de fazer um parto, conforme revelou sua ex-mulher, parecia que quem tinha tido um filho era ele. Passava horas na cama, exausto, pois a medicina (que devia despertar amor e gratificação) estava lhe fazendo mal. Já afeito às letras, ele decidiu estudar para ser diplomata, tendo conseguido estabelecer uma carreira de sucesso no Itamaraty.
Apesar de o episódio ter ocorrido no Brasil dos anos 1930, o exemplo vivido pelo escritor mineiro é bastante simbólico para discutir a medicina contemporânea, que muitas vezes disponibiliza ao médico diferentes recursos para cuidar de seus pacientes, mas não necessariamente o deixa imune aos desafios e vicissitudes da profissão. Pelo contrário: as estatísticas mostram que os médicos vêm adoecendo ao exercer o seu ofício.
Em outubro de 2025, a OMS/Europa divulgou os resultados da pesquisa Mental Health of Nurses and Doctors (MeND), realizada com mais de 90 mil profissionais de 29 países europeus. Segundo a entidade, 1 em cada 3 médicos hoje apresenta sintomas de depressão ou ansiedade. Além disso, 1 em cada 4 trabalha mais de 50 horas por semana e 32% têm contratos temporários, condição que pode estar associada à ansiedade decorrente da insegurança profissional.
Os dados ajudam a dimensionar uma realidade que também vem atingindo os recém-formados, já que a expansão do número de profissionais nos últimos anos tornou o mercado ainda mais competitivo, dificultando a inserção e a estabilidade em comparação com outras épocas. Muito mais do que questões mercadológicas, no entanto, a pergunta que fica é: quem cuida daquele que se dedica a cuidar dos outros? Por que tantos profissionais adoecem e não buscam o devido cuidado?
“Muitos médicos hoje parecem funcionar no automático: produzem, entregam, mas estão emocionalmente exaustos”, afirma a médica psiquiatra Dra. Lana Maria Pereira. “Ele é treinado para cuidar, mas não admite que também precisa de cuidado. Muitas vezes, sequer percebe essa necessidade ou tem resistência em reconhecer depressão, ansiedade, burnout, entre outros problemas, incluindo aí a parte cardíaca ou endócrina. Ou seja: não estamos falando apenas de saúde mental. O médico vem adoecendo como um todo”, alertou.
Segundo Dra. Lana, a pressão por produtividade e o automatismo da rotina também ajudam a explicar esse cenário. “Muitos médicos amam a medicina, mas não gostam da maneira como exercem a profissão. Às vezes, falta aquele vínculo do passado, já que hoje vários atuam como PJ, sem se sentirem valorizados em seu ofício. De repente, tudo vira produtividade e sobrevivência e muitas coisas acabam se perdendo nesse caminho”, diz a médica. “A dificuldade de estabelecer limites se torna uma constante. O médico acaba assumindo mais plantões, mais funções, mais pacientes, sem saber se vai conseguir sustentar tudo isso. O preço é o distanciamento da família, bem como esgotamento físico e mental. Isso sem falar na própria noção de propósito e identidade. Em vez de gerir a carreira, o médico acaba apenas reagindo à realidade. Daí a importância de abordarmos esse tema, a fim de que o médico possa exercer a medicina em sua plenitude, mas sem deixar de cuidar de si mesmo”.
