A alimentação exerce um papel fundamental durante o tratamento do câncer, como parte essencial do cuidado integral do paciente.
Quem já enfrentou o câncer sabe das mudanças que ele pode provocar na rotina do paciente. Mas elas não dizem respeito apenas a consultas médicas. O combate à doença também passa pela alimentação, que precisa receber uma atenção especial nesse momento, sobretudo quando há perda de peso e massa muscular. É o que afirma a Nutricionista Maria Colares, especialista em nutrição oncológica pelo Hospital Israelita Albert Einstein-SP.
“A alimentação exerce um papel fundamental durante o tratamento do câncer, especialmente diante da caquexia, uma síndrome complexa e frequente em pacientes oncológicos, marcada pela perda involuntária e progressiva de peso e, principalmente, de massa muscular. Nesse contexto, o acompanhamento nutricional não deve ser visto apenas como uma estratégia para recuperar o peso, mas como parte essencial do cuidado integral do paciente”.
De acordo com a Nutricionista, a caquexia está relacionada à própria doença e envolve uma combinação de fatores, como inflamação sistêmica, alterações metabólicas, redução do apetite, menor ingestão alimentar e aumento das necessidades do organismo. “Por isso, mesmo quando o paciente consegue se alimentar, pode continuar perdendo massa muscular. É importante entender que caquexia não significa simplesmente que o paciente está comendo pouco e que aumentar a quantidade de comida, isoladamente, nem sempre é suficiente para interromper o processo”, disse.
A perda de músculo, segundo Maria Colares, é uma das principais preocupações. “O músculo está diretamente relacionado à força, mobilidade, autonomia e capacidade funcional. Sua redução pode deixar o paciente mais frágil, dificultar atividades do dia a dia e comprometer sua capacidade de enfrentar procedimentos e tratamentos. Além disso, a perda de massa muscular pode acontecer mesmo sem uma grande redução do peso corporal, especialmente quando há preservação ou aumento da gordura corporal. Por isso, olhar somente para a balança pode não revelar a real dimensão do comprometimento nutricional”, ressaltou.
É nesse cenário que a atuação do nutricionista ganha ainda mais importância. “A avaliação nutricional deve ser individualizada e considerar não apenas peso e índice de massa corporal, mas também a evolução do peso, ingestão alimentar, sintomas que interferem na alimentação, composição corporal, massa muscular e capacidade funcional. As diretrizes internacionais, como as da ESPEN, reforçam a importância da avaliação precoce e do acompanhamento nutricional contínuo durante o tratamento oncológico”.
Em pacientes com caquexia, o objetivo da terapia nutricional vai muito além de aumentar o número na balança. Busca-se preservar ou recuperar, quando possível, a massa muscular e a função física, garantir a oferta adequada de energia e proteínas, reduzir o impacto dos sintomas e melhorar a qualidade de vida. “A alimentação deve ser adaptada à realidade e às necessidades de cada paciente. Dependendo do quadro, pode ser necessário aumentar a densidade energética das refeições, adequar a quantidade e a distribuição de proteínas, fracionar a alimentação ao longo do dia e utilizar preparações mais fáceis de consumir”.
Segundo a Nutricionista, também é fundamental controlar os sintomas que prejudicam a alimentação. “Náuseas, vômitos, dor, constipação, diarreia, alterações do paladar e do olfato, boca seca, feridas na boca e dificuldade para engolir podem reduzir significativamente a ingestão alimentar. Nesses casos, tratar esses sintomas e adaptar a consistência, temperatura, sabor e volume das refeições pode ser tão importante quanto definir o que o paciente deve comer”.
Quando a alimentação habitual não é suficiente para atender às necessidades nutricionais, o nutricionista pode avaliar a utilização de suplementos nutricionais orais. Em situações específicas, quando o trato gastrointestinal funciona, a nutrição enteral pode ser considerada. “A nutrição parenteral também possui indicações específicas. Entretanto, as diretrizes ressaltam que essas estratégias não devem ser utilizadas de maneira automática em todos os pacientes com câncer avançado ou caquexia: a decisão deve considerar o estado clínico, prognóstico, funcionalidade, objetivos do tratamento e preferências do paciente”, diz Maria Colares. “A nutrição no câncer deve ser precoce, individualizada e multimodal, com foco não apenas no peso, mas principalmente na preservação da massa muscular, função e qualidade de vida”.
