Canetas emagrecedoras: o alerta que vai além da balança

Há pouco mais de um ano, a tirzepatida (comercializada como Mounjaro) chegava às farmácias brasileiras, sendo indicada para o tratamento do diabetes tipo 2 e o controle crônico do peso, em conjunto à dieta de baixa caloria e aumento de atividade física. Desde então, o uso dessa e de outras canetas emagrecedoras passou a ser amplamente discutido e disseminado, tornando-se cada vez mais presente no cotidiano de quem busca alternativas para perder peso.

Em pouco tempo, ao se observar a crescente busca por essas substâncias, médicos e entidades de saúde alertaram para os riscos do uso inadequado de canetas emagrecedoras, que precisam de acompanhamento profissional, a fim de que seus efeitos sejam observados de forma individualizada. Além de aspectos metabólicos e do estado nutricional do paciente, cresceu também o alerta quanto à saúde mental, já que a relação com a comida, o humor e a presença de transtornos alimentares devem ser avaliados durante o tratamento.

Um consenso internacional publicado em setembro na revista World Psychiatry, referência na área de psiquiatria, reuniu especialistas em diabetes, obesidade e transtornos alimentares. Eles abordaram, entre outros temas, a importância de reforçar o acompanhamento de pessoas com histórico ou risco de transtornos alimentares durante o uso dessa classe de medicamentos, a fim de monitorar sinais físicos e psicológicos, incluindo alterações no comportamento alimentar, velocidade da perda de peso, fome e saciedade, humor e qualidade de vida.

O motivo é simples: a alimentação não diz respeito apenas a um imperativo biológico. Já está mais do que consolidada a percepção de como a comida faz parte da nossa cultura, estando associada ao prazer, à convivência social e familiar, entre outros fatores. Para algumas pessoas, ela pode funcionar como uma forma de lidar com dificuldades emocionais. Justamente por isso, quando a relação com a comida se altera, podem ocorrer mudanças na forma como o paciente gerencia as próprias emoções, o que reforça a necessidade de acompanhamento de quem já sofreu ou sofre com transtornos alimentares.

Tudo isso ajuda a entender por que o uso de caneta emagrecedora deve estar inserido em um cuidado mais amplo, que deve abranger não só alimentação adequada, mas prática de atividade física e atenção aos aspectos emocionais e comportamento alimentar. Quem apresenta histórico de compulsão ou de transtornos alimentares, bem como ansiedade ou depressão, pode necessitar de acompanhamento psicológico e psiquiátrico nesse processo, de acordo com a avaliação do profissional que acompanha esse paciente. O cuidado, portanto, vai muito além do peso.