Andréa Muniz

Publisher, empresária da comunicação, jornalista, engenheira de produção. Com experiência de 25 anos à frente do Mania de Saúde.
Andréa Muniz

Antes de escolher um lado

O que desejo ensinar à minha filha antes que ela tenha certeza de tudo. Por vezes me pego num impasse, aprofundar ou não um determinado assunto com a minha adolescente, mas uma certeza eu tenho, preciso incitar nela o discernimento em aprender a buscar informações e a pensar por si mesma

No fim, minha expectativa não é que ela escolha sempre o lado que considero certo. É que aprenda a não entregar a ninguém o trabalho de pensar por ela. Nem à maioria, nem aos discursos mais convincentes, nem mesmo eu!

Dia desses, fui buscar Sophya na escola e, no caminho, ela fez uma observação partidária. Por alguns segundos, pensei em como eu deveria orientá-la. A resposta não era dizer o que pensar, nem corrigir sua opinião a partir da minha. Tive que pensar em milésimos de segundos em como abordar a situação e aproveitar aquele momento para conversar sobre algo que considero essencial: antes de repetir uma ideia, precisamos saber de onde ela veio e mais, saber o que significa. Jamais sermos, como diziam os mais velhos: “massa de manobra”. Agora eu sou a “mais velha”!
Atualmente vivemos um momento delicado no que tange à quantidade e multiplicidade de informações que temos acesso diariamente e, se isso está adoecendo os adultos, vamos pensar no impacto para as nossas crianças e adolescentes. Precisamos lembrar disso a todo instante. O futuro deles está em jogo e somos responsáveis diretos por essa formação.

Sugeri à ela que buscasse a informação original, pesquisasse, conhecesse diferentes versões e procurasse entender os contextos antes de transformar uma opinião alheia em convicção própria.
Não quero criar uma filha que concorde comigo em tudo. Quero que ela desenvolva a capacidade de pensar, questionar e sustentar suas escolhas com argumentos que realmente compreenda. Que não tenha vergonha de mudar de opinião quando descobrir algo novo, nem confunda firmeza com a obrigação de nunca voltar atrás.

As eleições tornam essa preocupação ainda mais evidente. Em meio a discursos, recortes e frases repetidas milhares de vezes, é fácil aderir a uma ideia sem conhecer sua origem, seu significado ou suas consequências. O difícil, e talvez o mais importante, é interromper o impulso de tomar partido e dedicar algum tempo a compreender o assunto.

Isso vale para a política, mas não se limita a ela. Vale para as relações, para as escolhas profissionais, para a maneira como julgamos alguém e até para as certezas que carregamos há anos.
Como mãe, sei que não conseguirei poupá-la de todas as influências, muito menos decidir quais ideias cruzarão seu caminho. Posso, porém, incentivá-la a fazer boas perguntas, a ouvir sem se sentir obrigada a concordar e a discordar sem desrespeitar.

Eu admiro muito a sabedoria da Sossô, que, mesmo no auge dos seus 14 anos, tem uma inteligência emocional absurda e perceptível. Em momentos em que muitos adultos se “perderiam”, ela simplesmente sabe qual briga comprar…

Confesso que, após observar algumas situações, busquei me inspirar no exemplo dela e passei a deixar algumas coisas fluírem por si só, e está funcionando!

O Brasil que desejo para Sophya não depende apenas de quem estará no poder. Depende também da formação de pessoas capazes de participar da vida pública com consciência, responsabilidade e disposição para pensar além das próprias convicções.

No fim, minha expectativa não é que ela escolha sempre o lado que considero certo. É que aprenda a não entregar a ninguém o trabalho de pensar por ela. Nem à maioria, nem aos discursos mais convincentes, nem mesmo eu!