A armadilha digital que pode comprometer a autoestima dos jovens

Noísa Rangel – Psicóloga – Psicoterapia com foco em Ansiedade e Tratamento de Traumas, Terapia Cognitivo Comportamental e Terapia Conjuga

Noísa Rangel explica como o excesso de conexão afeta os adolescentes e como os pais podem ajudá-los

Automutilação, ideação suicida, ansiedade, depressão, crises de abstinência, desafios nocivos viralizados, baixo desempenho escolar, baixa autoestima e complexo de inferioridade são alguns dos sofrimentos psíquicos apontados por especialistas que estudam o impacto da longa exposição e do modo de consumo de conteúdos na internet sobre a saúde mental de crianças e adolescentes.
Segundo esses estudiosos, o excesso de conexão rouba espaço de tarefas essenciais – estudo, vínculos familiares, descanso, sono de qualidade, lazer e convívio presencial –, intensificando a sensação de carência e a pressão para corresponder aos padrões de influenciadores. O jovem torna-se, assim, mais vulnerável ao desejo de ser aceito, à vergonha de si e à anulação da própria personalidade, ao tentar se tornar outra pessoa – muitas vezes apenas um personagem. Mas como tudo isso se inicia?

“O conteúdo digital tem atrativos para todos os gostos e idades e é altamente viciante”, afirma a psicóloga e terapeuta cognitivo-comportamental Noísa Rangel, com quem o Mania de Saúde conversou sobre o desafio de ajudar adolescentes a resistir a essas armadilhas virtuais.

Mania de Saúde – Em sua atuação clínica, quais são os principais problemas apresentados pelos jovens dessa era digital?

Noísa Rangel – Os jovens com dependência digital apresentam desinteresse pela vida fora da tela. Já tive paciente que trocava o dia pela noite, gastando horas e horas no mundo virtual. A autoestima deles é baixíssima, eles acreditam que são incapazes de governar a própria mente. Também se sentem improdutivos e incapazes de terminar os estudos, de trabalhar, de sustentar relacionamentos. O que consequentemente ocasiona uma série de outros problemas.

Mania de Saúde – Como o “cancelamento” pode afetar a autoestima e a percepção que o adolescente tem de si mesmo?

Noísa Rangel – Nessa fase da vida, o cérebro ainda está moldando sua identidade, dependendo fortemente da aprovação social e do pertencimento a grupos para construir a autoimagem. Quando ocorre uma rejeição em massa, os efeitos na autoestima e na autopercepção costumam ser profundos e até devastadores.

Mania de Saúde – Como as famílias podem se proteger desse vício digital?

Noísa Rangel – Eu recomendo como primeiro passo uma conversa franca, sem tom de acusação, explicando aos jovens as dinâmicas viciantes do ambiente digital. E também uma postura firme dos pais, que precisam colocar limites claros no tempo de tela. Um exemplo: desconexão total de 1 a 2 horas antes de dormir com os aparelhos fora do quarto à noite. Além disso, é fundamental ocupar o tempo com alternativas offline: esporte, passeios, cinema, parque, e tantos outros. O aprendizado de novas habilidades, como pintura, teatro ou culinária, também ajuda. No mais, eu falo repetidas vezes aos meus pacientes: “A chave do sucesso da vida é o equilíbrio”. Tanto o excesso quanto a falta são prejudiciais ao ser humano. Gastar muito tempo em uma única atividade, qualquer que seja, causa prejuízos, inclusive a dependência.