Estudos recentes publicados em revistas e jornais científicos nos Estados Unidos têm apontado uma crescente preocupação entre os pacientes na busca por psicólogos ou terapeutas que demonstrem possuir uma mesma visão de mundo. Existem relatos de que a forte polarização política e ideológica tenha migrado para o divã de muitos profissionais.
Enquanto isso, no Brasil, apesar de o Código de Ética Profissional do Psicólogo proibir a indução de convicções políticas, filosóficas, morais ou religiosas, por outro lado, o Conselho Federal de Psicologia já emitiu resoluções que orientam os profissionais a atuarem ativamente no combate ao racismo, à homofobia e à transfobia, o que acaba, por vezes, gerando um conflito no entendimento de alguns psicólogos e pacientes.
A psicóloga Nathália Gomes respondeu ao Mania de Saúde algumas perguntas sobre este tema delicado, mas de suma relevância na atualidade.
Mania de Saúde – Como o terapeuta deve lidar quando o paciente expressa opiniões ou comportamentos (políticos, religiosos, morais) com os quais discorda?
Nathália Gomes – Não é trabalho do(a) psicólogo(a) concordar ou discordar pessoalmente do paciente, mas compreender como aquelas crenças, valores e comportamentos se relacionam com a sua história e com as razões que o trouxeram para a terapia. O Código de Ética também prevê que haja respeito à liberdade, à dignidade e à diversidade das pessoas, e não permite que o profissional venha a induzir o paciente quanto a esses quesitos.
Mania de Saúde – Existe na Psicologia algo equivalente à objeção de consciência prevista na Medicina, caso haja um conflito de valores entre o psicólogo e o paciente?
Nathália Gomes – Uma discordância pessoal não assegura ao psicólogo o direito de recusar atender alguém. No entanto, o Código de Ética possibilita ao profissional que este reconheça, por razões técnicas, éticas ou de competência, não ser a pessoa mais adequada para conduzir determinado tratamento e, assim, encaminhar o paciente.
Mania de Saúde – Diante da polarização atual, faz sentido o paciente investigar a linha ideológica do terapeuta antes de iniciar o tratamento?

Nathália Gomes – Eu diria que existe fundamento em pesquisar o profissional, mas não necessariamente para descobrir se ele pensa exatamente como o paciente em todos os pontos. O mais importante é encontrar um(a) psicólogo(a) que consiga respeitá-lo, escutá-lo e trabalhar clinicamente sem tentar convertê-lo às próprias crenças, que de fato seja um profissional ético. A psicoterapia exige confiança e abertura. Se uma pessoa acredita que não conseguirá falar sobre determinados assuntos sem ser julgada, é compreensível que procure conhecer melhor com quem irá iniciar o tratamento. Por isso, considero importante que o psicólogo tenha consciência dos próprios valores e saiba diferenciá-los daquilo que pertence ao processo terapêutico do paciente. O consultório não deve ser um espaço para convencer o paciente a pensar como o terapeuta.
