Há poucos dias, andando por um shopping da cidade, esbarrei com meu amigo Amaro, piloto offshore, que imediatamente me lançou num enredo digno de Thomas Mann. “Por onde tu anda, bicho? Você simplesmente desapareceu!”, reclamou ele.
Já estou acostumado a ouvir esse tipo de queixa de outros amigos e conhecidos, mas a ênfase de Amaro me surpreendeu. “Não é para tanto! Não passei na tua casa há poucos meses? Acho que foi no final do ano passado…”, respondi, com a nítida impressão de tê-lo visto recentemente. “Cara, isso tem mais de seis anos…”, retrucou ele, aos risos, comprovando meu equívoco quanto à data.
Toda vez que passo por situações como essa – e elas parecem cada vez mais frequentes no mundo corrido em que vivemos – me lembro de “A Montanha Mágica”, que alçou o nome de Thomas Mann ao topo da literatura alemã no século XX.
No livro, acompanhamos a história do jovem Hans Castorp, que estava prestes a iniciar a carreira como engenheiro, mas precisou visitar um de seus primos, internado em um sanatório para tratar de uma doença. A visita de Hans, que deveria durar poucas semanas, acaba, no entanto, convertendo-se numa longa permanência, quase sem data para terminar, já que ele adoece lá em cima e passa a se integrar à rotina daquelas pessoas em exílio sanitário.
Mas o grande personagem do clássico de Thomas Mann não é ele, e sim o tempo, que move uma série de discussões ao longo do romance. Tanto que, em vários momentos, o narrador revela como a duração objetiva dos fatos à nossa volta nem sempre corresponde à maneira como os registramos. Na rotina do sanatório, semanas e meses frequentemente se confundiam na memória dos personagens, enquanto determinados instantes, quando observados com atenção, pareciam se prolongar de forma indefinida. Thomas Mann nos mostra que o presente, no fundo, pode ser mais subjetivo do que imaginamos, com uma métrica totalmente distinta do calendário usual.
Outro escritor que sempre me vem à memória, nesse contexto, é Mário Quintana, que vivia defendendo o máximo de tempo possível contra o progresso do mundo. Em uma de suas crônicas, ele contava a história de um remoto país do oriente, cuja viagem da capital até a fronteira levava cerca de trinta dias, a lombo de camelo. Até que um estudioso inglês decidiu resolver aquele problema, sugerindo abrir uma malha ferroviária para otimizar aquele processo e a viagem ser feita em apenas um dia. Um progresso e tanto, não? O autor da ideia, contudo, logo foi interpelado pelo governante, que lhe perguntou na cara dura: “mas o que é que a gente vai fazer dos vinte e nove dias que sobram?”.
Não lembro bem em qual livro do Quintana está essa história, já que o li há muito tempo. Ou foi recentemente? Agora já nem sei… Nos últimos dias, passaram-se muitos anos, como dizia Rubem Braga, que eu vivo citando por aqui. A literatura, afinal, está sempre me ajudando a entender melhor o tempo. Já a experiência, nem tanto.
