Antes de procurar um médico, você já consultou a IA?

Profissionais discutem como a IA está mudando a relação médico-paciente

A escolha de 18 de outubro como data celebrativa do Dia do Médico tem como justificativa o calendário litúrgico católico, que dedica este dia à memória de São Lucas, apóstolo de Cristo e autor do Terceiro Evangelho, chamado por São Paulo de “médico amado”. Segundo Dom Anuar Battisti, em uma publicação no site da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, “a figura de São Lucas recorda que a verdadeira cura acontece quando se unem o saber científico e o amor fraterno”.
Por sua vez, Dr. Cid Carvalhaes, ex-Presidente da Federação Nacional dos Médicos, certa feita publicou pelo Conselho Federal de Medicina o seguinte: “Apesar de todas as dificuldades o médico brasileiro não se esqueceu do juramento que fez a Hipócrates, o pai da medicina. Continua fiel à ética, ao voluntarismo e ao trabalho humanitário”.
Portanto, considerando o referencial do Dia do Médico, e a visão representativa da categoria, podemos concluir que o profissional de medicina deve deter ciência, técnicas e sensibilidade humana. Sendo inegável sua relevância em nossas vidas e imprescindível sua atuação empática, individualizada e empírica.
Nos últimos tempos, contudo, tem sido perceptível o crescente número de pessoas que vêm recorrendo a pesquisas ou “consultas” com IAs antes de buscar ajuda médica. Embora essas ferramentas tenham gerado avanços importantes para a atuação profissional, desde o apoio à pesquisa científica até a otimização de rotinas, seu uso também tem influenciado a forma como o público se relaciona com a própria saúde.
Por isso, convidamos profissionais experientes para abordar em que medida o uso de Inteligência Artificial pode auxiliar ou prejudicar pacientes, já que o cuidado médico envolve aspectos que vão além da tecnologia.

 

Dr. Flávio Rodrigues Ribeiro, Pediatra, Cardiologista Pediátrico e professor universitário:

Em princípio é positivo que o paciente esteja bem informado, mesmo antes de procurar o médico. A diferença é que, apesar de a IA oferecer respostas com aparência clínica, é de grande importância que o paciente compreenda que uma pesquisa informal nunca substituirá um bom diagnóstico clínico. Há registros de casos em que orientações equivocadas obtidas por meio de IA levaram a decisões até prejudiciais à saúde. Quando recebemos um paciente que já tenha supostamente se consultado com a IA, é preciso oferecer acolhimento sem desqualificá-lo, a fim de fortalecer a relação médico-paciente, a confiança na avaliação clínica diagnóstica e terapêutica do profissional. O Conselho Federal de Medicina afirma que o uso de IAs deve servir como apoio, mas não pode comunicar diretamente diagnósticos e tratamentos, sendo esta atribuição do ato médico.

 

Dra. Lidiane Silva, médica com pós-graduação em Psiquiatria Geral, Perita Judicial e professora universitária:

Na psiquiatria, observo essa mudança diariamente, e precisamos primar pelo equilíbrio. O paciente mais informado não é, necessariamente, um problema. Quando a pesquisa é de boa qualidade, isso até favorece uma relação mais madura com o paciente. No entanto, apesar de a tecnologia facilitar o acesso à informação, o diagnóstico e o cuidado continuam dependendo de algo que nenhuma ferramenta consegue substituir completamente: a escuta, o vínculo, o raciocínio clínico e a compreensão daquela pessoa em sua singularidade. E, nesse cenário, o papel do médico também se transforma. Precisamos desenvolver cada vez mais o chamado letramento em saúde: a capacidade de encontrar, compreender e avaliar criticamente informações relacionadas à saúde.