O que você gosta de fazer quando não há nada para fazer?

Saiba por que descobrir um hobby pode ser uma jornada tão desafiadora consigo mesmo

Parece um questionamento fácil, mas, numa sociedade em que somos bombardeados simultaneamente por informações em larga escala e em alta velocidade, o estado de alerta e a corrida constante para manter-se atualizado, dar conta de inúmeros compromissos e ter a sensação de dever cumprido fazem com que muitos de nós talvez não tenhamos nos permitido desfrutar da oportunidade de fazer algo que realmente nos proporciona prazer sem culpa. Outros, inclusive, nem praticam essa pausa saudável porque ainda não sabem o que gostariam de fazer.

Entre trabalho, estudos, responsabilidades familiares e cobranças diárias, o espaço para explorar interesses pessoais acaba sendo deixado de lado. Como consequência, o lazer passa a ser visto como um luxo, quando, na realidade, é uma necessidade para a saúde mental. Um hobby vai muito além de um passatempo. Trata-se de uma atividade realizada por gosto pessoal e totalmente desvinculada da obrigação de gerar resultados, dinheiro ou reconhecimento.

Diante da dificuldade em lidar com o ócio — que passou a ser interpretado como perda de tempo e tédio —, muitos adultos e adolescentes relatam que nunca descobriram um hobby e que, quando surge um período sem nada para fazer, ficam ansiosos ou com peso na consciência por não estarem produzindo.

No entanto, nem sempre o hobby aparece de forma imediata. Em muitos casos, é preciso insistir em um caminho de reconexão consigo mesmo. Recentemente, a psicóloga Nathália Gomes compartilhou em suas redes sociais sua saga de autodescoberta no sentido de praticar o que ela mesma recomenda aos seus pacientes: “Não deposite toda a sua energia ou considere como uma única fonte de satisfação uma pessoa, uma atividade ou uma coisa”.

Mania de Saúde – Na prática clínica, você costuma detectar dificuldade dos pacientes em lidar com o ócio? Isso caracteriza algum tipo de problema ou pode acarretar algum?

Nathália Gomes – Na maioria dos casos de ansiedade que atendo, há dificuldades em lidar com o ócio, e eu vejo uma grande relação disso com o contexto em que vivemos hoje. Atualmente, somos hiperestimulados o tempo todo, e os momentos que poderiam ser de um descanso real se transformam em mais consumo de informações. Esse consumo excessivo pode aumentar o nível de ansiedade, atrapalhar a execução de tarefas mais exigentes e consideradas tediosas, entre outros impactos.

Mania de Saúde – O que você recomenda para que as pessoas aprendam a lidar com esses momentos de pausa, sem se sentirem culpadas por não estarem sendo produtivas?

Nathália Gomes – Levando em consideração o nosso contexto atual, é importante frisar que fomos e somos constantemente ensinados a atrelar o nosso valor ao quanto produzimos e conquistamos, em vez de associá-lo a quem somos enquanto pessoas. Como consequência, essa associação nos faz concluir que o descanso não é permitido ou que seria algo destinado apenas a pessoas “preguiçosas”, por exemplo.

Nesse sentido, o descanso é tão importante quanto os momentos considerados “produtivos”, tendo em vista que são justamente o descanso e os momentos de lazer que nos auxiliam a sustentar o trabalho ao longo do tempo. Para finalizar, deixo uma pergunta para o leitor refletir: por que apenas o trabalho e os estudos são considerados atividades “produtivas”?