A criança tem dificuldade de aprendizagem e você não sabe por quê?

Fonoaudióloga explica como alterações no processamento auditivo podem afetar a fala, a leitura e a escrita

Hoje em dia, é muito comum que educadores e pais observem o desenvolvimento de seus filhos e alunos além das notas, preocupados também com seu comportamento. No entanto, vem se tornando habitual o equívoco de associar a maioria das dificuldades apresentadas pela criança a algum transtorno, como TDAH ou dislexia, ou a problemas psicológicos.

A dificuldade de aprendizagem é algo transitório e normal, pois toda pessoa passa por dificuldades em algum momento da vida, podendo desaparecer com o tempo ou mediante alguma atitude. Já o transtorno está mais ligado a atrasos que o estudante manifesta de forma contínua, com respostas mais lentas às intervenções, e pode também transcorrer com comorbidades.

Todavia, em alguns casos, o problema real da criança não está necessariamente em aprender, mas em seu cérebro não compreender os sons recebidos pelos ouvidos. É o que a ciência chama de Distúrbio do Processamento Auditivo Central, uma alteração na forma como a parte auditiva do cérebro analisa e interpreta os sons detectados pelo indivíduo.

Para compreender melhor o tema, o Mania de Saúde buscou a Clínica Casah e conversou com a Dra. Isabela Brandt, Fonoaudióloga especialista em Distúrbios da Comunicação Humana, docente no Curso de Fonoaudiologia da Uniflu, que atua com avaliação e terapia de Processamento Auditivo Central.

Mania de Saúde – Quando uma dificuldade de aprendizagem em um aluno/filho pode indicar uma alteração do Processamento Auditivo Central?

Dra. Isabela Brandt – O estudante, ainda na Educação Infantil, pode apresentar sinais como lentidão em compreender comandos, troca de fonemas, não aprecia ou demonstra desconforto durante atividades com música e contação de histórias. No período da alfabetização, aparecem dificuldades em associar letra ao som, tonicidade e acentuação.

Mania de Saúde – Quais avaliações são necessárias para identificar o problema corretamente?

Dra. Isabela Brandt – Em primeiro lugar, os pais devem consultar um especialista em desenvolvimento infantil (neuropediatra, neuropsiquiatra infantil) para descartar questões orgânicas e, então, prosseguir com avaliações multidisciplinares. No entanto, o estudante deve ser encaminhado para a fonoaudiologia sempre que apresentar alterações na fala, leitura imprecisa e lenta, dificuldade para compreender o que lê, trocas na escrita, dificuldade na organização de uma redação. O fonoaudiólogo realizará um protocolo de testes para uma avaliação, encaminhará para exames complementares e pedirá pareceres de áreas afins.

Mania de Saúde – Qual a diferença entre uma criança iniciada em uma intervenção sem a devida investigação e a que recebe o tratamento correto?

Dra. Isabela Brandt – O mais sensato é que os pais busquem um profissional de referência para consultar e acompanhar o desenvolvimento de seu filho, mantendo um diálogo contínuo com a equipe escolar. O valor de um correto diagnóstico é abreviar a angústia de muitos pais que se veem perdidos na busca por uma solução (imediata ou não). Com o devido acompanhamento, como fonoaudióloga, costumo assistir à possibilidade de o indivíduo ganhar habilidades de comunicação (oral, gestual e/ou escrita) que lhe permitirão sentir-se pertencente ao mundo.