
A cobrança por performance pode afetar a saúde mental dos adolescentes
Os jovens de hoje vivem em uma cultura que valoriza desempenho: boas notas, aprovação em vestibulares, domínio de idiomas, prática de esportes, produtividade, aparência, popularidade. Muitas vezes, até uma foto nas redes sociais pode se transformar em indicador de sucesso. O problema não está em incentivar um adolescente a desenvolver suas capacidades e se dar bem nos estudos. A questão começa quando a expectativa se transforma em uma cobrança constante, fazendo o jovem acreditar que seu valor como pessoa depende diretamente daquilo que consegue entregar ao mundo.
É o que nos conta a médica pós-graduada em Psiquiatria da Infância e Adolescência, Saúde Mental e Atenção Psicossocial, Neuropsicologia e Gestão em Saúde Pública, Dra. Maíra Mattos. “Como médica e focada em atendimentos na psiquiatria infantil e na adolescência, tenho observado um fenômeno que merece a atenção de pais, educadores e de toda a sociedade: adolescentes que vivem sob a sensação permanente de que precisam apresentar bons resultados para serem reconhecidos, valorizados ou, muitas vezes, para sentirem que são suficientemente bons. Quando a mensagem repetida é de que nunca é suficiente, o adolescente pode deixar de interpretar o desempenho como apenas uma parte de sua vida e começar a enxergá-lo como uma medida de seu próprio valor. A nota deixa de ser uma nota; transforma-se em uma avaliação de inteligência. Um erro deixa de ser um erro; passa a representar fracasso. Uma reprovação pode ser vivenciada não como uma dificuldade pontual, mas como a confirmação de que ‘eu não sou capaz’. Esse processo pode favorecer ansiedade, baixa autoestima, sentimentos de inadequação, depressão, perfeccionismo e esgotamento emocional”.
Segundo Dra. Maíra, o estresse, quando intenso e persistente, também pode repercutir no corpo e no comportamento, com alterações do sono, dificuldade de concentração, irritabilidade, dores de cabeça, sintomas gastrointestinais e perda de interesse por atividades que antes proporcionavam prazer. Estudos internacionais apontam que a pressão relacionada ao desempenho escolar pode afetar a saúde mental dos adolescentes, enquanto o apoio familiar e social atua como fator de proteção. “Não estamos falando que toda cobrança produz um transtorno mental ou que os pais devem deixar de estabelecer limites e expectativas. Isso seria uma interpretação equivocada”, pondera a especialista. “O que merece atenção é a combinação entre alta exigência, medo de decepcionar, comparação constante e ausência de espaço para falhar”, acrescentou.
O suporte emocional, como lembra Dra. Maíra, é fundamental nesse processo. “O papel da família não é retirar os desafios da vida do adolescente. É oferecer uma base segura a partir da qual ele possa enfrentá-los. Isso significa reconhecer o esforço, valorizar o processo e ensinar que erros e frustrações fazem parte do desenvolvimento. Significa demonstrar interesse pela pessoa que existe por trás do boletim escolar, perguntar como está dormindo, como estão as amizades, se está se sentindo pressionado, se ainda encontra prazer nas atividades e se sente que pode conversar sem medo de julgamento. Mesmo que nessa fase as respostas sejam monótonas, ter esse caminho aberto em uma relação familiar faz toda a diferença”.
Outro ponto fundamental, segundo ela, é observar mudanças de comportamento. Um adolescente que sempre foi comunicativo e passa a se isolar, que deixa de dormir adequadamente, apresenta irritabilidade persistente, crises de ansiedade, queda no rendimento, recusa escolar, alterações alimentares ou sofrimento intenso diante de pequenos erros está sinalizando que algo pode não estar bem. “Nesses casos, não devemos interpretar o comportamento como preguiça, falta de disciplina ou ‘drama’. É preciso escutar, acolher antes de julgar. Nesses momentos, a avaliação de um médico focado em psiquiatria da infância e da adolescência pode ser fundamental para compreender o que está acontecendo, identificar possíveis transtornos e orientar a família sobre as melhores estratégias de cuidado. A psiquiatria não deve ser vista apenas como um recurso para situações graves, mas como uma especialidade que pode ajudar o adolescente e sua família a compreender o sofrimento, fortalecer recursos emocionais e recuperar saúde e qualidade de vida”.
