Dr. Leonardo Bacelar explica o fenômeno e mostra como a insônia pode afetar o desempenho profissional
Difícil encontrar alguém que não esteja constantemente preocupado com o trabalho, não é mesmo? O ritmo de vida contemporâneo, junto às mudanças promovidas pela tecnologia, pode fazer com que muitas pessoas se sintam menos seguras em suas ocupações, parecendo estar sempre em débito com a própria carreira. Essa dinâmica, tão comum na rotina, acaba trazendo repercussões à saúde mental, prejudicando o rendimento de inúmeras pessoas no trabalho. É nesse contexto que ganha destaque o tão falado presenteísmo. Mas, afinal, do que se trata esse fenômeno?
“Presenteísmo é quando a pessoa está presente no trabalho, mas não consegue desempenhar suas atividades com a mesma capacidade habitual, muitas vezes por causa de algum problema de saúde”, afirma o médico psiquiatra Dr. Leonardo Bacelar, Diretor da Clínica Proteus, que é referência em medicina ocupacional e engenharia de segurança do trabalho.
Segundo ele, a qualidade do sono tem um papel fundamental nesse processo, acendendo o alerta para quem sofre de insônia. “Estudos mostram uma relação entre problemas de sono e redução da produtividade. Uma revisão sistemática e meta-análise de intervenções para insônia no ambiente profissional encontrou melhorias não apenas nos sintomas de insônia, mas também em indicadores como produtividade, presenteísmo e esgotamento profissional. Uma análise publicada em 2024, por exemplo, reuniu 11 estudos randomizados com 4.723 participantes e observou que a terapia cognitivo-comportamental para insônia esteve associada à redução do presenteísmo e das perdas de produtividade, embora os pesquisadores ressaltem que a certeza das evidências ainda é limitada”.
Dr. Leonardo lembra que uma noite mal dormida pode parecer um problema passageiro para algumas pessoas, mas, quando a dificuldade para dormir se repete, as consequências podem aparecer durante o dia, inclusive no trabalho. “Durante o sono, o organismo realiza processos importantes para o funcionamento cerebral. Por isso, dormir mal pode dificultar tarefas que exigem concentração, memória, raciocínio e tomada de decisões. No ambiente profissional, isso pode aparecer de maneiras nem sempre percebidas como consequência do sono: levar mais tempo para terminar uma tarefa, sentir-se cansado, esquecer informações, perder a concentração durante uma reunião ou ter maior dificuldade para resolver problemas. Nem sempre, porém, a consequência é faltar ao trabalho”, ressaltou.
Qual a abordagem correta para a insônia?
A primeira coisa a se ter em mente é o fato de que insônia não é falta de vontade ou de disciplina. “É comum que alguém com insônia ouça frases como ‘é só relaxar’ ou ‘você precisa se esforçar para dormir’. Mas a insônia pode envolver mecanismos que mantêm o cérebro em estado de alerta, dificultando o sono. Por isso, tentar ‘forçar’ o sono nem sempre resolve. Pessoas com insônia podem, inclusive, desenvolver preocupação excessiva com a própria capacidade de dormir, o que aumenta o estado de alerta, gerando um ciclo difícil de interromper. Romper esse ciclo pode exigir uma abordagem específica para cada paciente”.
Segundo Dr. Leonardo, conforme descrito no Consenso de Diagnóstico e Tratamento da Insônia em Adultos 2023, a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) é considerada uma das principais abordagens para a insônia crônica. “A Associação Brasileira do Sono recomenda a TCC-I e considera sua modalidade multicomponente o tratamento de referência. A abordagem pode ser realizada presencialmente, em grupo ou por meios digitais, dependendo do caso e da disponibilidade. Higiene do sono pode ajudar, mas, na insônia crônica, não deve ser considerada isoladamente como tratamento. As diretrizes brasileiras recomendam uma abordagem estruturada, com acompanhamento profissional e, quando indicado, o tratamento farmacológico. Nesse contexto, o médico psiquiatra pode exercer um papel fundamental na avaliação do paciente e na condução do tratamento, verificando, inclusive, se a insônia pode estar associada a outros transtornos”.
