
Se antes a saúde mental dos trabalhadores parecia um assunto de foro íntimo, hoje ela passa a integrar formalmente as obrigações de empresas e órgãos públicos de todo o país. Isso mesmo: a Norma Regulamentadora 1 (NR-1), elaborada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), entrou em vigor no final de maio e vem provocando transformações no setor corporativo, que agora precisa voltar sua atenção para os fatores capazes de contribuir para o adoecimento mental no ambiente de trabalho.
A medida exige que todas as empresas com contratos regidos pela CLT, incluindo órgãos públicos, identifiquem, avaliem e controlem riscos psicossociais relacionados à maneira como o trabalho é organizado e executado. O descumprimento da NR-1, como informa o portal do Tribunal Superior do Trabalho (TST), pode resultar em autuações, multas administrativas e repercussões em eventual responsabilização judicial, se comprovada a omissão do empregador nesse processo.
Mesmo com toda a repercussão do tema, diversas empresas ficaram em dúvida sobre como fazer esse mapeamento, especialmente quanto ao que deve ser observado para estar em conformidade com a NR-1. A fim de abordar o assunto, o Mania de Saúde ouviu a médica psiquiatra Dra. Lana Maria Pereira. Com pós-graduações em saúde e MBA de Gestão em Saúde, ela também se dedica a promover estratégias para o fortalecimento da saúde mental, com foco no bem-estar emocional de equipes e empresas.
“O primeiro ponto a se destacar quanto à NR-1 é a sua legitimidade. Afinal, não se trata de uma exigência desprovida de contexto. O adoecimento mental já vem, há anos, causando enorme preocupação no país, como diariamente podemos observar nos consultórios de psiquiatria”, afirma Dra. Lana. “Só no ano passado, por exemplo, a Previdência Social concedeu em torno de 546 mil benefícios ligados a transtornos mentais, atingindo o maior patamar dos últimos dez anos. Isso mostra como a saúde mental precisava, sim, ser incorporada de forma mais enfática às políticas de prevenção no ambiente de trabalho”, acrescentou.
Um dos principais gargalos, nesse contexto, é a estrutura direcionada à saúde mental dos trabalhadores. Isso porque apenas 5% das organizações afirmaram estar totalmente preparadas para atender às exigências da NR-1, conforme pesquisa realizada no setor. “Um dos primeiros passos é fazer o mapeamento dos riscos psicossociais, a fim de identificar, com clareza, fatores que possam gerar sofrimento psíquico e criar um plano de ação, incluindo canais de escuta ativa e indicadores de saúde”, frisa Dra. Lana. “Para isso, as empresas podem recorrer a um profissional de psiquiatria e realizar diagnósticos organizacionais, podendo contar também com o suporte de profissionais da área de psicologia. A ideia não é apenas cumprir uma exigência legal, mas sim identificar riscos nem sempre tão evidentes no cotidiano de trabalho. Muitas vezes, eles estão relacionados à própria cultura da empresa, ao tipo de comunicação interna, sobrecarga, entre outros fatores. Com apoio especializado, é possível estruturar ações mais efetivas e garantir um desempenho mais saudável das equipes”.
Ao cumprir essas exigências, as empresas não apenas se resguardam legalmente, como também ajudam a diminuir os índices cada vez mais preocupantes de adoecimento psíquico no contexto laboral. “No dia a dia psiquiátrico, vemos diversos pacientes com burnout, transtornos de ansiedade, depressão, com o cotidiano de trabalho exercendo um papel relevante para esse adoecimento. Muitos trabalhadores sequer comunicam a empresa sobre esses problemas. Isso para não falar dos casos de automedicação, que dificultam ainda mais o processo. No fundo, o trabalho, em si, já apresentava sinais importantes de adoecimento. A NR-1 veio para reconhecer formalmente a necessidade desse cuidado”.
