A fome oculta e o impacto da nutrição na FERTILIDADE e na gestação

Fertilidade
A nutricionista Daiane Duarte, especialista em Fertilidade e Saúde Gestacional

Muitas mulheres e casais que desejam engravidar acreditam estar saudáveis simplesmente porque seus exames laboratoriais aparecem “dentro do normal”. No entanto, esse “normal” não representa um corpo em equilíbrio, mas sim uma média populacional formada por pessoas cansadas, inflamadas e com deficiências nutricionais silenciosas. Essa realidade pode dificultar a concepção, aumentar o risco de perdas gestacionais e interferir no desenvolvimento do bebê. A chamada desnutrição silenciosa é um dos fatores mais subestimados nesse processo.

Sinais cotidianos, muitas vezes ignorados, já indicam que algo não vai bem: cansaço ao acordar, sonolência após as refeições, retenção de líquidos, pele opaca, cabelo enfraquecido, intestino irregular, falhas de memória, irritabilidade, além de mãos e pés sempre frios. Para a nutricionista Daiane Duarte, esses sintomas revelam desequilíbrios bioquímicos que afetam os mesmos processos necessários para a fertilidade, implantação embrionária e uma gestação saudável. “O corpo grita antes de falhar”, afirma.

Um dos principais equívocos é confiar apenas nos resultados de exames laboratoriais dentro da faixa de referência. Daiane alerta que esses valores refletem apenas uma média estatística — e uma população adoecida cria parâmetros adoecidos. Um exemplo simples é a ferritina: enquanto o laboratório considera aceitável um nível acima de 22 ng/mL, o corpo precisa de pelo menos 70 ng/mL para funcionar plenamente, sobretudo no processo reprodutivo. “Gerar uma vida exige excelência, não apenas normalidade”, reforça.

Para explicar como o corpo reage à falta de nutrientes, a nutricionista usa uma metáfora clara: “Imagine uma casa com R$ 3.000 em contas fixas mensais. Se a renda for de R$ 3.500, tudo é pago sem preocupações. Mas se só entra R$ 2.000, a pessoa precisa priorizar. O organismo faz o mesmo: mantém coração e cérebro funcionando, mas reduz funções que não garantem a sobrevivência imediata — como equilíbrio hormonal, reprodução e regulação do sistema imune. Assim, um corpo que está apenas ‘se virando’ dificilmente terá condições de gerar uma vida com segurança”.
Outro ponto fundamental: todos os nutrientes importam. Cada divisão celular depende de matéria-prima específica. Se, durante esse processo, falta vitamina B3 e só há folato disponível, há erro. E um único erro pode interferir na formação neurológica, imunológica, óssea e até no potencial cognitivo da criança. “É como ter tijolo e areia, mas faltar cimento: a estrutura existe, mas não tem robustez”, explica. Apesar disso, quando um casal decide engravidar, quase sempre busca um ginecologista ou obstetra — e raramente um nutricionista. “Culturalmente, a nutrição ainda não é vista como base, mas ela é”, afirma Daiane. Muitas comorbidades consideradas distantes da fertilidade — desde inflamações crônicas até intoxicações por metais pesados — surgem de desequilíbrios bioquímicos que a nutrição especializada consegue identificar e corrigir.

FertilidadeA abordagem da nutricionista é profunda e personalizada: análise detalhada de exames com foco em níveis ótimos, identificação de carências invisíveis, ajustes alimentares anti-inflamatórios, suplementação sob medida, detoxificação de toxinas e regulação natural dos hormônios. Esse processo, segundo ela, não apenas restaura a fertilidade, mas também reduz riscos de perdas gestacionais, melhora a qualidade da gestação e favorece o neurodesenvolvimento do bebê. “O corpo funciona como uma grande orquestra — e cada nutriente é um instrumento. Zinco, vitaminas do complexo B e ômega-3 contribuem para a qualidade dos gametas; vitamina D e magnésio influenciam a implantação; folato, B12, colina e iodo sustentam o desenvolvimento neurológico; antioxidantes protegem o DNA. Se um instrumento desafina, a sinfonia não acontece”, resume.

Ela também propõe uma reflexão simples para quem está se preparando para engravidar: “você acorda com energia? Tem pele, cabelo e unhas saudáveis? Dorme bem? Tem humor estável? Seu intestino funciona todos os dias? Seus exames estão ótimos — ou apenas normais? A fertilidade é consequência de um corpo equilibrado. A jornada da maternidade não começa com um teste positivo. Começa quando a mulher decide cuidar do corpo como o primeiro lar do seu futuro filho. Meu papel é traduzir o que o corpo diz antes que ele grite. Quando ajustamos o que parece pequeno, abrimos espaço para que a vida aconteça de forma plena, saudável e com propósito”, finaliza Daiane.