(*) Sthevo Damaceno é jornalista e
editor do jornal Mania de Saúde.
sthevodamaceno@maniadesaude.com.br

Sthevo Damaceno

Quando a solidez vira referência

Dia desses, presenciei uma situação curiosa. Três ou quatro adolescentes saíam de um comércio frustradas por não terem achado um determinado acessório para uma câmera digital. Só depois soube que os jovens de hoje estão ressuscitando aquelas cybershots já antigas para registrarem seu cotidiano, mesmo com todos eles portando celulares de última geração (e só de eu me referir àquela câmera como “antiga” já demonstra como certas visões sobre o futuro têm virado passado rapidamente). A onda vintage, pelo visto, ajuda a explicar muita coisa.

Mas faz todo o sentido, aliás. Ainda que as novas tecnologias e os algoritmos busquem nos iludir com a ideia de que tudo evolui numa linha reta e ascendente, a verdade é que o mundo real é bem menos retilíneo e muito mais pendular do que às vezes parece. O “fino chão de gelo que sustenta a sociedade moderna”, parafraseando Roger Waters, sempre acaba se rompendo por mudanças que abalam nossos costumes, que derretem nossas certezas, levando-nos de volta a pontos já conhecidos. A dita “evolução”, quando aplicada à sociedade, pode fazer sentido em campos como a ciência, porque, em outros, ela é apenas controversa. No mínimo, discutível.

Se não fosse assim, muitas ideias antigas já teriam sido enterradas para sempre, em vez de voltarem com outras roupagens. Aquilo que tentam matar hoje, às vezes, pode retornar amanhã. Há poucas semanas, por exemplo, enquanto vagava pelas redes sociais, acabei me deparando com um fato curioso: a quantidade de pessoas que diziam ter feito uma assinatura de jornais impressos. Lá no X, o “antigo Twitter”, desde 2025 tem aparecido internautas mostrando o jornal do dia, afirmando como é diferente ler notícias de forma organizada, sem o caos e o excesso do mundo digital.

Esse movimento, inclusive, transcendeu a própria plataforma. Recentemente, a colunista Maria Prata, do portal Universa, fez um texto revelando que também voltou a assinar jornais impressos para interagir com suas filhas, não apenas por um tom nostálgico, mas para que elas se familiarizassem com a ideia de ficar bem informadas, reforçando ainda o vínculo entre mãe e filhas durante a leitura de notícias.

Ao ver esse pêndulo atingir o jornalismo, foi impossível não lembrar das colunas de Sylvio Muniz, fundador do Mania de Saúde. Numa delas, ele discorria sobre o mercado publicitário, onde era comum encontrar veículos tentando copiar a “fórmula de sucesso” do Mania de Saúde sem, no entanto, oferecer o mesmo alcance e credibilidade, a ponto de morrerem pelo caminho. Nesse contexto, não foram poucas as vezes que vi, na redação, ele e Andréa receberem com naturalidade profissionais que decidiram orientar seus custos publicitários para outros veículos mas que, algum tempo depois, retornavam ao jornal, em busca de resultados mais efetivos para a consolidação da sua marca ou do seu negócio.

Os tempos são mutáveis, parecem andar sempre para frente, mas, nesse mês de aniversário, só consigo lembrar dessa solidez construída por Sylvio Muniz, que parecia compreender como ninguém esse movimento pendular da vida (e da própria área de comunicação), sempre dizendo que, nela, é possível comprar muita coisa. Menos a credibilidade.