É fato: desde a pandemia de Covid-19, o mercado de trabalho nunca mais foi o mesmo. Se o mundo digital já vinha modificando a relação das pessoas com a própria carreira, sobretudo no âmbito do ensino, com a chegada dos cursos EAD, a relação com o trabalho também se transformou consideravelmente nos últimos cinco anos, devido ao número cada vez maior de pessoas atuando em regime híbrido ou mesmo em home office.
Para se ter uma ideia, um levantamento da ABRH Brasil, divulgado em 2025 e amplamente repercutido na imprensa, demonstrou que o modelo híbrido atualmente empata com o regime presencial e tende a ganhar força como padrão no mercado. Segundo as estatísticas, 46,2% das empresas já adotaram o modelo híbrido, praticamente empatando com as que mantêm regime totalmente presencial (46,6%), enquanto 7,3% operam exclusivamente em home office. No cenário internacional, a tendência aparece de forma ainda mais consolidada: estimativas para 2026 revelam que 52% dos trabalhadores atuam em regime híbrido, enquanto 28% trabalham integralmente em home office.

Muitos fatores ajudam a entender o fenômeno, a começar pelo uso das tecnologias digitais para a efetivação de processos, redução de custos operacionais, contratação de trabalhadores de outras regiões e a própria mudança de mentalidade quanto à produtividade. Mas nem tudo é simples como parece. Apesar dos pontos positivos, que incluem até mesmo uma redução dos níveis de estresse em alguns setores tradicionalmente presenciais e de alta pressão corporativa, vêm crescendo também as discussões em torno da saúde e segurança do trabalho, já que as empresas continuam responsáveis pelas condições oferecidas ao colaborador. Ou seja: independentemente do modelo escolhido, elas podem ser responsabilizadas em casos de doenças ocupacionais, que não se restringem apenas ao âmbito psicológico, mas englobam também fatores ergonômicos e organizacionais do trabalho.
“Quando falamos de regime híbrido ou remoto, é fundamental entender que a mudança de ambiente pode ser positiva para ambos os lados, mas não elimina a responsabilidade das empresas com a saúde do trabalhador. Ela apenas desloca parte dos riscos”, afirma o médico psiquiatra Dr. Leonardo Bacelar, Diretor da Clínica Proteus. “No ambiente doméstico, por exemplo, algumas características comuns ao ambiente corporativo deixam de existir, como o acompanhamento mais próximo de gestores e coordenadores, que geralmente contribui para a identificação desses riscos. Ao mesmo tempo, surgem outros dilemas, como inadequações ergonômicas, jornadas menos delimitadas e irregulares, maior dificuldade de desconexão, entre outros. Do ponto de vista da SST, isso reforça a necessidade de prevenção e acompanhamento das condições laborais, a fim de evitar maiores problemas para o trabalhador e também para as empresas”, disse.
Outro ponto importante, segundo Dr. Leonardo, está relacionado à própria comunicação entre a empresa e seus funcionários, já que, mesmo com tantas possibilidades diante da tecnologia, a interação entre equipes acaba sendo reduzida, ficando até mais protocolar em alguns casos. “Hoje vemos diversas empresas com forte investimento em tecnologia, reunindo processos muito centrados em plataformas digitais e tarefas automatizadas, o que acaba diminuindo a necessidade de comunicação. Mas isso pode representar um risco do ponto de vista da SST”, conta Dr. Leonardo. “É importante definir ações de bem-estar, manter canais de apoio psicológico acessíveis, bem como garantir o acompanhamento periódico das condições de trabalho, realizando ajustes quando houver necessidade. São medidas simples, mas que causam um impacto direto no cotidiano de trabalho, independentemente do modelo escolhido pela empresa”.
