Como um único transtorno mental pode se disfarçar em múltiplos sintomas físicos e emocionais, e por que a busca por ajuda é o primeiro passo para o alívio? Essa pode ser a dúvida de muitas pessoas, inclusive pais de crianças e adolescentes. Por isso, conversamos com a médica pós-graduada em Psiquiatria da Infância e Adolescência, Saúde Mental e Atenção Psicossocial, Neuropsicologia e Gestão em Saúde Pública, Dra. Maíra Mattos. “Como médica focada na saúde mental, uma das grandes lições que aprendi é que a mente humana raramente segue um roteiro simples. Para uma pessoa comum, a palavra ‘doença mental’ evoca imagens de um conjunto fixo de sintomas: depressão é tristeza, ansiedade é nervosismo. No entanto, a realidade é muito mais complexa e fascinante. É aí que entra o polimorfismo sintomático. Pense nele como a capacidade de uma única condição de saúde mental usar várias ‘máscaras’. Em vez de se manifestar de uma única forma previsível, ela pode surgir com uma variedade de sintomas que, à primeira vista, parecem não ter conexão alguma”, disse.
Isso demonstra a importância de quebrar o estigma e entender que os sintomas físicos também podem ser um sinal de que algo não vai bem com a nossa saúde mental, como alerta Dra. Maíra. “Reconhecer o polimorfismo sintomático nos capacita a buscar o tipo certo de ajuda. A falta de atenção é um excelente exemplo de polimorfismo sintomático. O que parece ser um sintoma único e simples é, na verdade, um ponto de convergência para várias condições. Explorando essa ideia mais a fundo:
• Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade: a desatenção é um sintoma central, primário da doença. A pessoa tem dificuldade em focar por longos períodos, se distrai facilmente e tem problemas para completar tarefas.
• Transtorno de Ansiedade: a falta de atenção não é por ausência, mas por excesso. A mente se torna um campo de batalha, com pensamentos acelerados e medos constantes consumindo toda a sua energia. Não há espaço para o mundo exterior; a atenção, em vez de se dispersar, se volta com uma hipervigilância. É como se o cérebro, em estado de alerta máximo, estivesse tão ocupado em monitorar a ameaça que se torna incapaz de registrar outras coisas.
• Transtorno do Espectro Autista: a atenção pode ser dispersa para o que não é de seu interesse, aparentando uma falta de atenção. A mente, ao invés de pular de uma coisa para outra, pode se fixar com uma intensidade notável em temas que a fascinam. Essa seletividade cria uma espécie de ‘túnel de atenção’, onde a pessoa pode mergulhar profundamente em um tópico de interesse, ignorando o restante do mundo ao seu redor.

• Deficiência Intelectual: a dificuldade de atenção pode estar relacionada a uma incapacidade de processar ou compreender a informação complexa. Não é uma questão de falta de foco, mas de capacidade cognitiva”.
Compreender essas nuances, portanto, é crucial para um diagnóstico preciso, como finaliza a médica. “Em vez de simplesmente tratar a falta de atenção, nós, médicos, investigamos a causa subjacente, o ‘porquê’ de o sintoma estar presente e, assim, oferecer o tratamento mais adequado. E aqui reside a verdadeira missão do médico que se dedica à saúde mental: olhar além dos rótulos e ouvir a história que o corpo e a mente estão tentando contar. O polimorfismo sintomático nos ensina que o sofrimento mental é profundamente humano e multifacetado, com cada pessoa vivenciando-o de uma forma única. Ao reconhecer que a ansiedade pode se disfarçar de dor de estômago e que a depressão pode se manifestar como irritabilidade, abrimos a porta para a compreensão e a compaixão. Não se trata de fraqueza, mas de uma complexidade que merece ser acolhida e tratada. E, nessa jornada, a clareza e o conhecimento se tornam o farol que nos guia em direção à saúde plena, permitindo que cada um de nós possa encontrar o caminho de volta para si mesmo. A mente é um labirinto, mas você não precisa desvendá-la sozinho. O polimorfismo sintomático é apenas a ponta do iceberg que muitos de nós carregamos. Se esta matéria ressoou com você, procure um profissional. A verdadeira saúde é um equilíbrio entre o que sentimos e o que vivemos”.
