Há poucos anos, o humorista Maurício Meirelles despontou no YouTube com um quadro, no mínimo, interessante. Ele passou a levar para o show de comédia diversos jovens da chamada Geração Z, a fim de ressaltar a diferença entre aquilo que eles conheciam e o repertório cultural das gerações anteriores. O resultado, evidentemente, foi hilário. Mas não deixou de provocar uma reflexão interessante sobre os jovens de hoje, especialmente por eles formarem “a primeira geração que não parece interessada pelo que veio antes dela nascer”.
Para evidenciar esse contraste, Maurício convidou jovens adultos para subir ao palco e começou a fazer inúmeras perguntas sobre o Brasil do final do século XX, com diversas referências a personagens da música e da TV, além de ditos populares, marcas de produtos de limpeza, entre outros fatos típicos daquela época. Era curioso ver tantos jovens não fazendo ideia sobre o que o humorista estava falando, mesmo quando o assunto girava em torno de quem foi Maguila, o que significava “Alô, Terezinha”, do que se tratava o nome “Kolynos”, entre outro cabedal de referências que qualquer pessoa nascida antes dos anos 2000 saberia quase que por osmose.
Claro que, ao ver os comentários nos vídeos, não faltou quem incorporasse a famosa síndrome da era de ouro, aquela tendência psicológica em que muitas pessoas enxergam o passado sempre melhor que o presente. Mas poucos talvez tenham notado que o contraste entre as novas gerações evidenciado por Maurício pode ter um fundo mais concreto: a dispersão social promovida pela tecnologia.
Se nos anos 1980 ou 1990 um adolescente era refém de apenas uma grande emissora para assistir ao filme do momento, acompanhando as mesmas celebridades dos programas dominicais, ouvindo sobre seu time de futebol pela boca dos mesmos repórteres e comentaristas, entre vários outros conteúdos pasteurizados, hoje a realidade é muito mais diversa e atomizada. Cada pessoa tem, no celular, seus canais de preferência, com influenciadores prontos para raptar-lhe a atenção.
Por isso se tornou frequente ver pessoas mais velhas surpresas diante de figuras com milhares de seguidores no Instagram, mas sobre as quais nunca tinham ouvido falar. O mesmo acontece quando se deparam com as músicas mais ouvidas no Spotify, com as séries mais bombadas nos streamings, dando sempre a sensação de que não conhecemos mais nada do que faz sucesso na atualidade. O abismo informacional é evidente.
Ainda assim, é possível instigar a garotada a conhecer certos ícones do passado, especialmente quando essas informações circulam dentro dos nossos próprios lares. Já me acostumei, por exemplo, a ver conhecidos de minha geração que tiveram filhos logo no início da vida adulta e, agora, os acompanham na pré-adolescência, com a maioria dos pequenos ouvindo e conhecendo as mesmas bandas do pai ou da mãe. Consumo gera consumo.
Já as redes sociais não ficam de fora desse processo. Assim como há muito lixo informacional, sobram influenciadores que têm feito um excelente trabalho de divulgação literária ou musical, a ponto de se tornar comum ver pessoas de 20 anos envolvidas com os romances de Graciliano Ramos e Jorge Amado, tendo vontade de ler os clássicos após seguirem muitos canais de booktubers pela rede. Mas nem podia ser diferente, já que o ser humano pode perder muitas coisas entre uma geração e outra, porém algo permanece imutável: a surpresa ou o desejo de conhecer.
É fato que estamos diante de uma geração que muitas vezes desconhece a letra de “Alegria, Alegria”, não sabe quem foi “Lígia” ou “Luiza”, ignora as “Curvas da Estrada de Santos” ou “Gîtâ” e provavelmente não faz a menor ideia de quem foi Nara Leão, Oscarito, JK e tantas outras figuras capitais da nossa história. Mas também seria um erro confundir desconhecimento com desinteresse, já que esses jovens não estão submetidos à onipresença midiática que havia no passado, quando éramos constantemente bombardeados por referências culturais em comum. Em outras palavras, talvez o verdadeiro abismo entre as gerações não esteja naquilo que uma sabe e a outra ignora, mas na perda de um mundo cultural que ambas pudessem reconhecer como seu.
