Você realmente tem TOC?

Dra. Lidiane Silva, médica com pós-graduação em Psiquiatria Geral e Psiquiatria da Infância e Adolescência

Dra. Lidiane Silva explica o que você precisa saber sobre o Transtorno Obsessivo-Compulsivo

Existem nomenclaturas tão presentes em nosso dia a dia que, muitas vezes, acabam sendo banalizadas pelo público. Um exemplo é o TOC. Para muitas pessoas, ele virou sinônimo de gestos repetidos de forma mecânica no cotidiano em geral, mas a verdade é que o TOC possui características muito mais complexas do que prega o senso comum, apresentando até mesmo uma forte ligação com a ansiedade. É o que nos conta a Dra. Lidiane Silva, médica com pós-graduação em Psiquiatria Geral e Psiquiatria da Infância e Adolescência, além de formação em Psicologia, com mais de 15 anos de atuação em saúde mental e professora universitária.
“Embora hoje o TOC tenha uma categoria diagnóstica própria, ele mantém uma relação muito estreita com a ansiedade. Na prática, o cérebro da pessoa com TOC funciona como um ‘detector de ameaças’ extremamente sensível. Ele interpreta dúvidas e possibilidades remotas como se fossem perigos reais e urgentes. Quando surge uma obsessão, por exemplo, ‘e se eu contaminar alguém?’, ou ‘e se eu esquecer o gás ligado?’, ocorre uma ativação intensa dos circuitos cerebrais ligados ao medo. A compulsão aparece como uma tentativa de aliviar esse desconforto. O problema é que esse alívio é temporário. O cérebro aprende que realizar o ritual reduz a ansiedade e passa a exigir esse comportamento repetidamente. Isso é chamado de reforço negativo e explica por que o TOC tende a se cronificar quando não tratado”, afirma.

Outro aspecto importante é o fato de muitos pacientes descreverem não só ansiedade, mas também uma sensação de que “algo está incompleto”, fenômeno conhecido como not just right experience, que pode ser mais incapacitante do que o medo e ajuda a entender por que alguns repetem ações inúmeras vezes. Além disso, observa-se hoje um aumento de casos em adolescentes, que pode estar relacionado não só ao maior reconhecimento diagnóstico, mas também a fatores como estresse e redes sociais. Muitos, inclusive, passam anos sem diagnóstico por terem os sintomas confundidos com “perfeccionismo” ou “fase da adolescência”.
“Todos nós temos manias, hábitos e preocupações. O que diferencia o TOC é o sofrimento e a perda de liberdade”, alerta Dra. Lidiane. “Existem dois grandes componentes no TOC: Obsessões (pensamentos, imagens ou impulsos involuntários, repetitivos e intrusivos, que causam intenso sofrimento) e Compulsões (comportamentos ou rituais mentais realizados para diminuir essa angústia). O grande equívoco é acreditar que TOC é apenas excesso de organização ou limpeza. Há pacientes com obsessões de conteúdo moral, religioso ou sexual e outros com compulsões apenas mentais, como revisar pensamentos ou buscar garantias constantes. Eles costumam demorar para serem diagnosticados porque não há rituais visíveis. O indivíduo percebe que os pensamentos são exagerados, mas sente dificuldade em resistir a eles. Por isso o TOC não é falta de inteligência nem de força de vontade. É um transtorno neuropsiquiátrico com alterações específicas no processamento da dúvida e da percepção de risco”, explicou.

Segundo Dra. Lidiane, o tratamento do TOC evoluiu muito nos últimos anos e, hoje, sabe-se que a intervenção precoce está associada a um melhor prognóstico. “O tratamento associa psicoterapia, especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental com Exposição e Prevenção de Resposta (EPR), ao tratamento medicamentoso quando indicado. A EPR não consiste simplesmente em ‘enfrentar o medo’. O objetivo é ensinar o cérebro que a ansiedade diminui sem a necessidade de rituais. É um processo de reaprendizagem cerebral baseado na neuroplasticidade. Quanto às medicações, utilizamos principalmente os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), sempre sob supervisão. Alguns casos podem exigir outros medicamentos ou estratégias mais avançadas, como neuromodulação, incluindo estimulação magnética transcraniana (EMT). O objetivo do tratamento não é eliminar completamente os pensamentos obsessivos, mas reduzir o poder que eles exercem sobre a vida do paciente. O TOC tem tratamento! Com diagnóstico correto, acompanhamento especializado e adesão terapêutica, a maioria dos pacientes apresenta melhora significativa na qualidade de vida”.