
O dado chama a atenção: todos os anos, milhares de brasileiros morrem em decorrência de tumores do aparelho digestivo. Só em 2025, tumores como os de pâncreas, estômago, fígado, cólon e reto, esôfago e peritônio somaram 74.001 óbitos no país, segundo levantamento divulgado pela Rede D’Or com base em dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. O Brasil acompanha uma tendência de crescimento do impacto dessas doenças, em meio a fatores como envelhecimento populacional, alimentação inadequada, sedentarismo, consumo de álcool, tabagismo e determinadas infecções crônicas.
Um dos grandes desafios é que muitos desses tumores ainda são diagnosticados em estágios mais avançados da doença, tornando o tratamento mais delicado e complexo. É nesse contexto que a cirurgia robótica vem ganhando espaço no tratamento dos tumores do aparelho digestivo, oferecendo ao cirurgião recursos que permitem maior precisão durante os procedimentos e, em pacientes adequadamente selecionados, uma abordagem minimamente invasiva associada a menor perda sanguínea e recuperação pós-operatória mais rápida.
Para abordar o assunto, o Mania de Saúde ouviu o Cirurgião Oncológico Dr. Jonatha Frazão. Formado em Cirurgia Geral pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com especialização em Cirurgia Minimamente Invasiva Avançada pelo Hospital Federal de Bonsucesso e em Cirurgia Oncológica pelo A.C. Camargo Cancer Center, onde também concluiu o Mestrado em Oncologia, Dr. Jonatha Frazão atua especialmente no tratamento dos tumores do aparelho digestivo e possui certificação em cirurgia robótica.
“Quando se fala em cirurgia robótica, é comum os pacientes perguntarem se ela pode oferecer melhores resultados no tratamento do câncer quando comparada às outras técnicas minimamente invasivas, especialmente à videolaparoscopia. Durante anos, já dispúnhamos de evidências sobre benefícios relacionados à precisão cirúrgica e à recuperação pós-operatória, mas ainda havia dúvidas sobre possíveis diferenças nos resultados oncológicos entre essas duas abordagens. Em 2025, um importante estudo multicêntrico randomizado comparou diretamente a cirurgia robótica com a cirurgia videolaparoscópica em 1.171 pacientes com câncer de reto médio e baixo. Após três anos, os pacientes submetidos à cirurgia robótica apresentaram uma redução de 55% no risco de recorrência do tumor na região operada em comparação com aqueles operados por videolaparoscopia. O estudo também demonstrou maior sobrevida livre de doença no grupo submetido à cirurgia robótica, além de melhores resultados funcionais em determinados períodos de acompanhamento, incluindo funções urinária, intestinal e sexual. São resultados importantes, que acrescentam evidência de alta qualidade sobre o papel da cirurgia robótica no tratamento do câncer de reto”.
Dr. Jonatha Frazão destaca também os recursos oferecidos pelas atuais plataformas robóticas, como o sistema Da Vinci, tecnologia que já vem sendo empregada em procedimentos realizados em Campos dos Goytacazes e Macaé. Na cirurgia aberta convencional, operações oncológicas complexas podem exigir grandes incisões abdominais. Com a abordagem robótica, muitos desses procedimentos podem ser realizados por meio de pequenas incisões, geralmente utilizando quatro ou cinco acessos no abdômen.
“A cirurgia robótica oferece visão tridimensional ampliada do campo operatório e instrumentos articulados com grande amplitude de movimento. Isso permite trabalhar com elevada precisão, inclusive em espaços anatômicos restritos e próximos a estruturas delicadas. Em casos selecionados, conseguimos realizar cirurgias oncológicas complexas de forma minimamente invasiva, favorecendo uma recuperação pós-operatória mais rápida, com menor perda sanguínea e menor incidência de complicações relacionadas à ferida operatória”, explica o cirurgião.
Essas características podem ser particularmente relevantes em operações realizadas em regiões anatômicas de difícil acesso. “A tecnologia facilita a visualização e a dissecção de estruturas que podem ser difíceis de abordar pela videolaparoscopia convencional ou mesmo pela cirurgia aberta. Mas é importante deixar claro que nem todo paciente precisa ou deve ser operado por via robótica. A indicação depende de fatores como localização e extensão do tumor, cirurgias abdominais anteriores, presença de aderências, características anatômicas e condições clínicas do paciente. A decisão deve ser sempre individualizada”.
Um exemplo recente dessa aplicação foi a realização, em Campos dos Goytacazes, de uma cirurgia de alta complexidade para tratamento de um tumor localizado na cabeça do pâncreas. O procedimento — uma gastroduodenopancreatectomia, também conhecida como cirurgia de Whipple — foi realizado por via totalmente robótica.
“Essa é uma das operações mais complexas da cirurgia oncológica digestiva. A realização de uma gastroduodenopancreatectomia por via totalmente robótica exige estrutura hospitalar, tecnologia e uma equipe capacitada para um procedimento desse porte. Nesse caso, o paciente apresentou boa evolução e recebeu alta hospitalar no quinto dia após a cirurgia”, relata Dr. Jonatha.
Para o cirurgião, a possibilidade de realizar procedimentos dessa complexidade em Campos dos Goytacazes e Macaé tem um significado que vai além da incorporação de uma nova tecnologia. “Isso representa um ganho importante para os pacientes da nossa região, que passam a ter acesso, mais perto de casa, a tratamentos de alta complexidade que historicamente estiveram concentrados nos grandes centros. A cirurgia robótica amplia as possibilidades de tratamento especializado para diferentes tumores do aparelho digestivo”.
Atualmente, a abordagem robótica pode ser empregada, em pacientes selecionados, no tratamento de diferentes neoplasias gastrointestinais, incluindo tumores do esôfago, estômago, cólon e reto, fígado, pâncreas e vias biliares. Mais do que substituir as técnicas já existentes, entretanto, Dr. Jonatha ressalta que a tecnologia deve ser entendida como mais uma ferramenta à disposição da cirurgia oncológica.
“Na oncologia, a tecnologia só faz sentido quando está associada à indicação correta, à experiência da equipe e ao respeito rigoroso aos princípios da cirurgia oncológica. O objetivo não é operar com robô simplesmente porque a tecnologia está disponível, mas utilizar a melhor estratégia para cada paciente. Quando bem indicada, a cirurgia robótica representa uma evolução importante, permitindo unir precisão, tratamento minimamente invasivo e qualidade oncológica, com impacto direto na recuperação e na qualidade de vida do paciente”.



