(*) Sthevo Damaceno é jornalista e
editor do jornal Mania de Saúde.
sthevodamaceno@maniadesaude.com.br

Sthevo Damaceno

O defeito que todo leitor apaixonado conhece

Muitas vezes durante a semana, na falta das revistas literárias de antigamente, resolvo me perder por alguns vídeos de booktubers por mero acaso ou distração, talvez uma espécie de asma literária, na qual eu devesse bombear de tempos em tempos uma dose de conteúdo aleatório para continuar respirando literatura.

As descobertas, claro, são inúmeras: vejo edições que ainda não conhecia (e me fazem envelhecer diante das tantas reencarnações de livros que já vi na vida), ouço comentários peculiares e curiosos, observo estantes diferentes e até mesmo formas criativas de produzir conteúdo. Entre esses achados, estava uma booktuber oferecendo dicas sobre como ler mais de um livro ao mesmo tempo.

Em vez de incentivo, no entanto, a reflexão dela acabou me trazendo uma certa nostalgia, por remeter àqueles calos de formação que às vezes carregamos pelo caminho. Afinal, como desejaria ler mais de três, quatro, cinco livros ao mesmo tempo! Desgraçadamente, porém, me habituei a um sem-número de horas vazias em saguões de espera, consultórios médicos, viagens interestaduais, aturando o “lento rio de aço do tráfego”, mas sempre sofridamente, irresolutamente – desgraçadamente, já disse – preso a um único livro, vivenciando um estado que um colega certa vez intitulou de “fidelidade patológica”.

O epíteto surgiu após ele me indicar uma série IMPERDÍVEL, absolutamente INADIÁVEL (a ponto de merecer o uso de maiúsculas), enquanto eu me afundava em outra série famosa, sobre a qual também usaria aquele mesmo tom prosódico e semântico caso fosse indicá-la a alguém. Pedi desculpas, claro: minha atenção é facilmente sequestrada e posta numa jaula a pires e leite, como as úlceras que incomodavam Nelson Rodrigues, ficando ali, aprisionada pelas mãos de qualquer obra artística que por acaso me interesse, até que ela enfim se acabe.

Da mesma forma, quando sou fisgado por um autor que empurrei com a barriga ou por uma leitura feita ao acaso, mas que consegue estabelecer aquele fenômeno descrito por Paul Auster (para quem a literatura era “deixar uma outra voz comandar a nossa narrativa interna”), dificilmente consigo sair desse estado de torpor patológico. Nada mais me importa na órbita celeste: podem ocorrer as maiores catástrofes, as maiores tragédias, que nada desviará minha atenção daquele autor sumamente genial, o mais absurdo de todos os tempos, fazendo-me torcer para que essa relação não se acabe em um simples soneto, mas que seja infinita enquanto dure.

Seria isso um defeito de formação? Diferença geracional? Incapacidade por não ter aprendido a administrar tantas leituras simultaneamente, ainda que tenha crescido justamente na transição do analógico para o digital e absorvido nosso caráter multitarefa? Como corrigir essa petrificação que me assola ao ver pessoas lendo cinco livros ao mesmo tempo, enquanto pareço estar no mínimo uns 10 mil anos aquém, quase um errante solitário inteiramente coberto de pelugem, batendo uma estaca contra ossos dentro de uma caverna?
Claro que há compensações: afinal, toda fidelidade é repleta de maravilhas que um infiel jamais teria conhecimento. De que forma exemplificar a sensação de viver dentro de uma história e ter a impressão de ser, ao mesmo tempo, autor, partícipe e até seu próprio espelho criativo? Como explicar o fenômeno de ver sua rotina sendo sobreposta pela história do outro, como se fosse uma transfiguração de corpos, ainda que em mero estado de linguagem? Como traduzir toda a miríade de espantos que só o convívio frequente e resoluto poderia trazer diante dos nossos olhos?

Por falar em olhos e literatura, há pouco tempo vi a Bruna Lombardi num podcast escolhendo os livros de sua vida. Senti-me justificado como leitor, já que muitas de suas escolhas seriam praticamente as minhas, num grau quase absoluto de coincidência. No seu ranking, por exemplo, havia Italo Calvino (“todo leitor deveria conhecer e ler mais o Calvino”, disse ela, no que eu assino embaixo), o “Ficções”, de Jorge Luis Borges (que inaugurou o mundo literário tal como conheço) e “Os Detetives Selvagens”, de Roberto Bolaño, que não se trata de um clássico no sentido estrito, mas que possui um calor humano, uma criatividade polifônica, uma latinidade absolutamente cativante, imbatível.

Fiquei bastante intrigado, aliás, com o fato de Bruna – poeta e leitora atentíssima, musa de Mario Quintana – elencar “Os Detetives Selvagens” como um dos livros de sua vida. Isso porque, embora tenha sido um dos pontos altos de Roberto Bolaño, o livro está um pouco longe de agradar o bom gosto vigente, já que por vezes se detém em histórias laterais, sexualidades nonsenses, enquanto a parte detetivesca, embora deliciosa, não raro afugenta os leitores (sem saberem, evidentemente, que seriam bastante recompensados ao final).

Mas talvez o apreço de Bruna tenha origem na fome insaciável que “Os Detetives Selvagens” demonstram pela vida (e pela poesia), algo que sem dúvida marcou tantas gerações. Daí o livro ter se tornado um totem geracional para tanta gente, fazendo-nos lembrar de tantos leitores e amigos que passaram pelas nossas vidas, com aquela sede de desvendar o próprio destino, ainda que sem saber muito bem por onde começar ou para onde ir.

As odisseias de todos aqueles personagens, tão mergulhados em literatura, com os sobretudos encharcados de lirismo escorrendo pelos bolsos, não deixam de refletir um tempo e um espírito que jamais se repetirão, mas dos quais ainda sentimos o aroma e o sabor intactos ao primeiro toque da madeleine.

Essa atmosfera proustiana, contudo, logo se desfez quando vi o amigo conclamando-me a ver a série imperdível, enquanto eu ainda estava preso à outra narrativa, com a leitura única de Roberto Bolaño no colo, lembrando da minha fraqueza cognitiva evocada pelo vídeo da booktuber lendo mais de um livro ao mesmo tempo, com uma atenção e uma destreza 10 mil vezes superiores à minha.

Foi quando desviei meus olhos para a imagem pausada de Bruna no vídeo. Com um sorriso luminoso, ela parecia me lembrar de uma lição que eu já vinha esquecendo: a de que alguns leitores são feitos para colecionar livros, enquanto outros para desaparecer dentro deles.