
Para muitas pessoas, a figura do nutricionista está diretamente atrelada à balança e ao emagrecimento, não é mesmo? Afinal, boa parte da sua atuação envolve dietas personalizadas e estratégias de reeducação alimentar, ajudando inúmeros pacientes a alcançar seus objetivos. Mas existem contextos em que o trabalho do nutricionista vai além da estética e do controle do peso, desempenhando um papel importante no acompanhamento de diversas enfermidades. Uma delas é o câncer.
A relevância dessa atuação fica ainda mais evidente quando observamos os resultados do Inquérito Brasileiro de Nutrição Oncológica, segundo o qual 45,1% dos pacientes com câncer internados apresentaram algum grau de desnutrição ou risco nutricional. Outro estudo multicêntrico brasileiro identificou que, entre pacientes oncológicos hospitalizados, esse índice chega a 66,4%.

Mas não para por aí: segundo as estatísticas, de 10 a 20% dos óbitos podem ser atribuídos às consequências da desnutrição e não ao câncer em si. Entre os principais fatores envolvidos no desenvolvimento da desnutrição estão o apetite reduzido, as anormalidades metabólicas e os sintomas relacionados ao tratamento (quimioterapia, radioterapia e cirurgia). “Apenas 30 a 60% dos pacientes oncológicos desnutridos recebem alguma terapia nutricional. A maioria chega ao tratamento sem nenhum suporte especializado”, alerta a Nutricionista Maria Colares, que é especializada em nutrição oncológica pelo Hospital Israelita Albert Einstein-SP e está realizando esse atendimento em nossa região.
Segundo ela, quando o paciente inicia a quimioterapia ou a radioterapia já desnutrido, o organismo não tem reservas para suportar a agressividade do tratamento. O resultado é direto: maior toxicidade, mais efeitos colaterais, necessidade de reduzir a dose ou interromper o protocolo. “O estado nutricional também compromete a cicatrização no pós-operatório, aumenta o risco de infecções, prolonga o tempo de internação e reduz a resposta imunológica. O paciente que chega desnutrido ao tratamento tem menos chances de chegar até o fim dele”, explicou.
Isso reforça a importância de avaliar o estado nutricional do paciente em todas as etapas, desde o diagnóstico e ao longo de todo o tratamento. “O paciente oncológico apresenta alterações metabólicas, sintomas e demandas que mudam a cada fase do tratamento e que exigem conhecimento específico em oncologia. Não se trata de uma condição que responde a condutas nutricionais convencionais, cada decisão precisa estar alinhada ao tipo de tumor, ao protocolo de tratamento e ao momento clínico do paciente. A negligência nutricional com esses pacientes ainda é uma realidade”, alerta Maria Colares. “O momento certo de buscar um nutricionista especializado em oncologia, portanto, é o diagnóstico, não quando o paciente já perdeu peso, não quando o tratamento precisou ser pausado, não quando a família percebe que ele não está mais conseguindo comer. A nutrição oncológica é uma estratégia de proteção. Quanto mais cedo o acompanhamento começa, mais ferramentas temos para preservar o estado nutricional, minimizar os efeitos colaterais do tratamento e manter o paciente em condições de seguir o protocolo até o fim”, disse.
De acordo com Maria Colares, a nutrição especializada contribui para melhores desfechos clínicos, menor toxicidade, maior qualidade de vida e evita interrupções no tratamento. “Ter uma equipe multiprofissional que inclui nutrição especializada desde o primeiro dia pode ser a diferença entre um tratamento que vai até o fim e um que precisou ser interrompido. O cuidado nutricional não é opcional. É parte do tratamento”.
