Há quem veja Alberto Manguel como um mero ensaísta literário. Mas basta regular nossas pálpebras para enxergarmos nele uma espécie de Virgílio, a nos proporcionar uma viagem distinta pela literatura. Essa cartografia, inclusive, faz com que seus livros sejam imensamente grifáveis, dando-nos insights a todo o momento. “Encaixotando minha biblioteca” gera vários deles.
Mas confesso que, apesar de muitas digressões instigantes (e várias histórias suscitadas pelo translado da biblioteca pessoal do autor), fui fisgado quase obsessivamente por uma palavra até então inédita no meu vocabulário, mas agora íntima em seu significado: “numinoso”.
Manguel cita esse termo ao falar de sua antiga casa na França, cujo jardim lhe despertava grande acolhimento. Segundo ele, o lugar dava a impressão de ser possuído por um espírito que os antigos chamavam de numinoso, já que as árvores eram “os templos dos deuses, e os deuses não se esqueceram disso”.
A curiosidade aumentou quando recorri à etimologia: “numinoso” vem do latim “numen”, que significa algo como “divindade”, além de se referir a um gesto de assentimento com a cabeça. Será por isso então que o som do vento na copa das árvores, vergando-as em direção a nós, desperte tanto fascínio e encanto?
O fato é que a sensação descrita por Manguel é muito comum a quem costuma se perder no silêncio da natureza. Nesses locais, sempre nos sentimos apaziguados. Sophia de Mello Breyner Andresen evoca essa sensação no poema “Cidade”, em que lamenta ver sua alma sombreada em prédios urbanos, já que ela fora prometida “às ondas brancas e às florestas verdes”.
Isso nos leva a outro lusitano: Alberto Caeiro. Vem dele uma boa definição sobre o estado numinoso, que deve ser mais vivido do que racionalizado. Como diz o heterônimo de Pessoa, “eu não tenho filosofia: tenho sentidos. Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, mas porque a amo, e amo-a por isso. Porque quem ama nunca sabe o que ama, nem sabe por que ama, nem o que é amar. Amar é a eterna inocência, e a única inocência é não pensar”.
Caeiro, assim como Sophia, sabia muito bem do que estava falando. Afinal, ambos eram poetas. E poetas, como lembra Rainer Maria Rilke, são a mais alta expressão da humanidade.
