Adultização infantil: um debate urgente

Adultização infantilDenúncia de influenciador mobiliza a sociedade e o poder público

A adultização infantil, expressão que descreve o processo de expor crianças — ou adolescentes — a comportamentos, responsabilidades e experiências tipicamente adultas antes do desenvolvimento emocional e psicológico adequado, voltou ao debate público, impulsionada por um vídeo viral do influenciador digital Felca.

No dia 6 de agosto de 2025, Felca — nome artístico de Felipe Bressanim Pereira — publicou um vídeo de quase 50 minutos intitulado “adultização”, que em poucos dias atingiu mais de 20 milhões de visualizações e atraiu mais de um milhão de novos inscritos para seu canal. No conteúdo, o influenciador denuncia a exploração e sexualização de menores por meio de redes sociais, evidenciando casos concretos, como influenciadores que submetem crianças a conteúdos sugestivos ou as transformam em empreendedores mirins para gerar engajamento e monetização. Felca também destacou o conhecido “algoritmo P”, que ele considera responsável por promover esse tipo de conteúdo: ao interagir com vídeos considerados sugestivos, o usuário recebe recomendações similares, criando um ciclo perigoso e potencialmente amplificador de material impróprio.

A repercussão do vídeo gerou reação imediata entre figuras públicas, sociedade civil e ambiente político. Deputados de diferentes espectros — da direita à esquerda — expressaram apoio à denúncia e defenderam ações concretas. No âmbito legislativo, o presidente da Câmara, Hugo Motta, anunciou que pautaria propostas relativas à proteção infantil em ambiente digital. De fato, de acordo com levantamento da Câmara dos Deputados, 32 projetos de lei foram apresentados entre os dias 11 e 12 de agosto, abordando desde a criminalização da adultização digital até regras de monetização, responsabilidade dos pais e transparência dos algoritmos das plataformas.

O fenômeno da adultização infantil não configura crime específico no Brasil, mas viola dispositivos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que assegura proteção integral aos menores e pune qualquer forma de negligência, exploração ou constrangimento. As propostas em tramitação pretendem endurecer a legislação vigente, criando instrumentos legais claros, como exigência de alvará judicial para participação de menores em conteúdos digitais, restrições à monetização e responsabilização civil e penal de responsáveis — inclusive plataformas digitais — por adultização e sexualização precoce.