As canetas emagrecedoras estão em alta. Mas até que ponto elas podem, de fato, ajudar no controle do peso e, sobretudo, no combate à chamada “fome emocional”? Será que essa nova tecnologia é inteiramente segura e eficaz? Quem nos traz essas respostas é o médico Dr. Cláudio Cola, Especialista em Clínica Médica e Pós-Graduado em Medicina Ortomolecular.
Mania de Saúde – Primeiramente: como diferenciar a fome física da fome emocional?
Dr. Cláudio Cola – Essa é uma questão complexa, porque a chamada fome emocional está ligada a mais de 80% dos casos de obesidade e o simples entendimento de que “fome” é uma necessidade metabólica de suprir nutrientes já nos ajuda a entender como são diferentes o universo físico e emocional quando o assunto é necessidade. O nome científico desse contexto é “ruído alimentar”, ou seja, um grande número de obesos não tem fome ou necessidade de comida e sim obsessão por comer, configurando um distúrbio emocional e não nutricional. Sendo assim, chamou-se de “ruído” essa ideia, vontade ou compulsão por se alimentar que não decorre da fome ou de fatores metabólicos, mas de uma falsa necessidade persistente, que só alivia após ser atendida e costuma ser seguida de arrependimento. Durante muito tempo, esse foi um grande obstáculo para controlar a obesidade, já que, mesmo com dieta e atividade física, sem conseguir parar esse “ruído”, o sobrepeso voltava e às vezes até aumentava. Fica claro, portanto, que não é a fome que se manifesta o tempo todo, mas sim uma vontade constante de comer, relacionada a distúrbios de neurotransmissores cerebrais e de alguns hormônios, estabelecidos a partir do estresse contínuo e de elevados picos de Cortisol.

Mania de Saúde – Como a ciência chegou às canetas emagrecedoras?
Dr. Cláudio Cola – Estudos feitos no final dos anos 80 e início dos 90 começaram a identificar receptores fora do cérebro, principalmente no intestino, que eram estimulados por uma substância semelhante ao hormônio Glucagon e estariam interligados aos neurônios cerebrais do centro de fome e da saciedade. Ou seja, começou a ficar claro que essa regulação não dependia apenas do cérebro, mas também de informações vindas de outros órgãos, sobretudo o intestino. A partir desta descoberta, passaram-se cerca de 20 anos para identificar e estudar esses receptores, que foram batizados de GLP-1 (sigla de peptídeo semelhante ao Glucagon), chegando aos dias de hoje, quando se pode sintetizar substâncias que interagem com esses receptores presentes em outros órgãos e que “informam” ao cérebro sobre fome e saciedade. Ou seja: descobrimos como usar informações de fora do cérebro que podem “silenciar o ruído alimentar”, que são os princípios ativos das canetas emagrecedoras. Ao entrar no organismo, essas substâncias diminuem a liberação de dopamina, responsável pela sensação de prazer obtida ao comer, ajudando a reduzir o ciclo que gerava e perpetuava o ruído alimentar. Com a dopamina mais baixa, a comida deixa de ser tão interessante e deixa de ser o principal foco do cérebro. Isso permite que o paciente, agora sob menos pressão, tenha mais liberdade para escolher outras fontes de prazer, como a atividade física, dando tempo para pensar, refletir, desviar a atenção e fazer outra coisa, em vez de entrar imediatamente no ciclo de comer, obter alívio por minutos e depois se arrepender por horas ou dias.
Mania de Saúde – Qual o maior erro de quem aposta apenas nessa medicação?
Dr. Cláudio Cola – Se agora temos esse “reforço” para controlar as informações de outros órgãos que chegam ao cérebro, podemos pensar que isso potencializa e otimiza a dieta e a atividade física, que continuam sendo essenciais. Porém, como essas substâncias trazem informações de outros órgãos para o cérebro, esse processo precisa ser bem aproveitado e acompanhado. Sem um suporte psicológico adequado, o risco do uso sem controle e sem ajuda é você tirar a comida do foco de seu prazer e trocar por uma coisa mais nociva, como álcool e drogas ainda piores, o que seria trágico, mas já vem sendo identificado em casos de uso indiscriminado da droga. Outro risco é não substituir essa busca por recompensa por nenhum outro estímulo, o que pode levar a baixos níveis de dopamina e provocar astenia, fadiga e até depressão. Tudo na vida requer equilíbrio. Se agora é possível silenciar o ruído alimentar, mudar o foco e fazer outras escolhas, o certo é aproveitar esse avanço reconfigurando seu ritmo de vida, seu padrão alimentar e, sobretudo, suas escolhas e prioridades, o que não deve ser tentado sem apoio multiprofissional.
