(*) Sthevo Damaceno é jornalista e
editor do jornal Mania de Saúde.
sthevodamaceno@maniadesaude.com.br

Sthevo Damaceno

Ler por prazer ou para bater meta?

Ler por prazer ou para bater meta?Há alguns dias, vagando pelas redes sociais, deparei-me com um tópico interessante: pessoas que faziam atividade física reclamavam da predominância dos “treinos” em vez da boa e velha “malhação” de sempre. O certo, nesse caso, seria “malhar” ou “treinar”? Claro que, sendo na internet, a discussão ganhou ares de luta livre, mas também não deixou de ser curiosa.

Isso porque, para algumas pessoas, tratar atividade física como “treino” poderia esvaziar seu lado prazeroso, quase lúdico, para dar lugar a uma postura utilitária e performática, hoje tão combatida no ambiente virtual. Mas, para outras, falar em “treino” seria o mais correto, justamente por tratar a atividade física da forma que ela precisa ser tratada: com seriedade, regularidade, constância, rigor.

Ainda bem que, naquele caso específico, minha opinião não foi solicitada, pois consigo ver legitimidade em ambos os discursos (sem dizer que, mineiramente, acabaria respondendo não ser a favor, nem contra, muito pelo contrário…). O que achei válido, mesmo, foi perceber como discussão parecida também vem ocorrendo no mundo da literatura, ainda que não esteja contaminada por questões assim tão semânticas.

O caso é que, atualmente, muito tem se falado sobre a “gourmetização da vida intelectual”, devido à quantidade de pessoas hoje aficionadas por livros, a ponto de tratá-los muitas vezes como performance. Isso se traduz em listas rigorosas de leitura, número fixo de páginas para ler por dia, fichamentos registrados em rede social, até chegar ao ápice desse processo, que é fechar o mês de dezembro com a foto da pilha de livros lidos naquele ano.
Apesar de existir quem torça o nariz para esse tipo de comportamento, ele não deixa de ter sentido, já que, em muitas situações, a leitura requer mesmo a construção de um hábito, sobretudo para quem nunca teve o costume de se embrenhar nesse universo. Como em um treino, a pessoa vai evoluindo no dia a dia, seja apreendendo melhor o conteúdo lido, seja adquirindo o hábito dos clássicos, que é sempre o objetivo maior de quem inicia esse percurso.
O contraponto, entretanto, também é importante, já que muitos livros possuem seu próprio tempo, suas lógicas internas, com histórias que devem ressoar em nosso imaginário antes de se tornarem mera estatística pessoal. Assim como na vida, o acaso e a despretensão são agentes fundamentais do processo. Um dos primeiros indivíduos que me fizeram observar a leitura por esse prisma foi Ricardo, vulgo Pancho Gonzalez, amigo dos tempos de universidade, que nos legou uma lição inesquecível.

Enquanto pegávamos vários volumes da biblioteca, num afã meio exagerado, ele às vezes passava semanas inteiras com o mesmo Fernando Sabino nas mãos, andando com o livro para todos os lugares. Isso dava a impressão de que ele lia pouco, comparando-se aos outros colegas. Mas bastava a turma iniciar uma conversa para que todos se impressionassem quando ele comentava sobre Fernando Sabino: tinha total domínio sobre os textos, fazia conexões insuspeitadas, traçava paralelos com nossas vidas e deixava todos em suspenso, muito mais do que nós quando comentávamos sobre nossas próprias leituras. Ou seja: o menos “performático” da turma, de repente, revelava-se um exímio leitor.

Mas isso é só uma história antiga, que trago como contraponto. Desconfio, inclusive, que o próprio Fernando Sabino veria mérito em ambas as causas (não sendo nem contra, nem a favor, muito pelo contrário…). Isso porque, independente de tudo, o que importa mesmo é ler, estar sempre junto dos livros, esses objetos que, como disse Alberto Manguel, nos oferecem inúmeras possibilidades: a possibilidade de mudança, a possibilidade de iluminação.