(*) Sthevo Damaceno é jornalista e
editor do jornal Mania de Saúde.
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Sthevo Damaceno

O fascínio discreto da vida comum

O fascínio discreto da vida comumPor mais inebriante que seja a literatura, há escritores que não nos despertam nenhuma vontade de conhecê-los em carne e osso. Já repararam nisso? Basta percorrer as biografias de algumas personalidades (ou mesmo admirá-las em excesso) para logo rejeitarmos essa ideia, a fim de manter intocável o encanto. Mas quem aprecia o talento de Victor Heringer, sobretudo se tiver nascido nos anos 1980, acaba tendo a sensação de que desejaria muito tê-lo conhecido.

Afinal, mergulhar em obras como “Vida Desinteressante” é como encontrar um amigo confidenciando perplexidades parecidas com as nossas, como se dividisse conosco, na mesa de um boteco carioca, o espanto de ver o Brasil com a identidade em estilhaços (os textos cobrem de 2014 a 2017), os desafios de viver de literatura, as ironias do amadurecimento, a dificuldade de abordar certos temas num país quase sem poesia, entre outros assuntos tratados com originalidade e perspicácia, como era de se esperar de alguém tão inovador na literatura e tão mergulhado em seu tempo.

Mas nem poderia ser de outro jeito: Victor nasceu em 1988 e fez parte da turma que viveu na juventude a transição do analógico para o digital. Essa nuance transparece nas crônicas, ora provocando uma constante sensação de hiperlinks (como se uma referência abrisse caminho para outras), ora aparecendo até no uso de emoji, como se estivéssemos em salas de bate-papo. Há até papos com amigos escritores quase como em uma mesa de bar! Mais próximo, impossível.

Essa característica, evidentemente, não invalida a receptividade da obra por parte de leitores de outras gerações. As muitas resenhas elogiosas que Victor recebeu confirmam essa tese. Basta lembrar como ele evoca o mesmo talento de um Paulo Mendes Campos (“Os tristes”, “A mulher mais triste do mundo”), de um Rubem Braga (“Tranquilo e calmo”), de um Drummond (“Viver na literatura”), só para citar partes desse vasto caleidoscópio que Victor destrincha para provocar o interesse pela leitura, ainda que a vida pareça desinteressante.
No fundo, ele captou o desejo de todo escritor: roçar o eterno com os dedos do efêmero. Até porque é nesse breve intervalo entre o transitório e o perene, tão delicado quanto excitante, que se esconde a nossa mais deliciosa epifania.