TDAH na vida adulta: você tem?

TDAH -  Dra. Lana Maria Pereira
A médica psiquiatra Dra. Lana Maria Pereira

Você costuma ter momentos de desatenção e dificuldade para finalizar tarefas? Sente-se desorganizado, a ponto de considerar impossível manter uma rotina minimamente estruturada? Pois saiba que esses sinais podem indicar o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Isso mesmo: ao contrário do que muitos imaginam, o TDAH não se limita às crianças, podendo se manifestar com diferentes sintomas na vida adulta.

“Por muito tempo, acreditou-se que o TDAH era coisa de criança, mas hoje a gente sabe que não é. Os sistemas de classificação de transtornos mentais deixaram de restringir o diagnóstico de TDAH à infância, já que o transtorno acompanha a vida adulta em torno de 60% dos casos”, afirma a médica psiquiatra Dra. Lana Maria Pereira. “Em muitas situações, o TDAH não é sequer reconhecido, mas pode gerar importantes repercussões no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos e na saúde mental como um todo”, ressaltou.
Dra. Lana explica que o TDAH em adultos se manifesta de forma mais sutil, sem a agitação típica das crianças. “O sintoma mais marcante é a desatenção, que dificulta as tarefas do dia a dia, assim como a impulsividade, traduzida em reações rápidas e dificuldade de esperar. Há também uma tendência de perder objetos e de organizar a rotina. Muitos adultos relatam exaustão constante, devido ao esforço para compensar esses lapsos. O indivíduo com TDAH possui um hiperfoco em temas de interesse. O fato de não dar atenção a determinadas tarefas, porém, costuma ser visto como preguiça seletiva. Mas a pessoa não é assim porque quer. Isso acontece por alterações neurobiológicas ligadas às vias dopaminérgicas e noradrenérgicas do cérebro, que geram impactos reais na autorregulação, no controle da atenção, na gestão do tempo, na hiperatividade e na impulsividade”, explicou.

Diagnóstico e tratamento

Segundo Dra. Lana, muitos casos de TDAH são diagnosticados após os 30 anos, sendo por vezes confundidos com quadros de ansiedade, depressão, transtorno bipolar e até burnout. “O diagnóstico é clínico, devendo ser realizado pelo médico. O teste neuropsicológico pode ser requisitado de forma complementar, quando necessário. Como o TDAH não é uma doença, não se pode falar em cura, mas existem soluções eficazes. Isso envolve medicamentos que melhoram foco, atenção e autorregulação, sempre de forma individualizada. É importante seguir a orientação de especialistas, pois, quando usados corretamente, esses medicamentos têm efeito real no dia a dia do paciente”, destacou.
As soluções, contudo, não terminam aí. “A psicoterapia é fundamental, com intervenções focadas nas funções executivas. Outros pilares são atividade física, regulação do sono e alimentação adequada, já que 90% da serotonina é produzida no intestino, influenciando no humor e no equilíbrio. Atividades prazerosas liberam dopamina, favorecendo foco e motivação. Existem ainda suplementos possíveis de serem utilizados, mas apenas com supervisão médica, a fim de favorecer o tratamento em vez de prejudicá-lo”, conta Dra. Lana, que também desenvolveu um curso com estratégias específicas para TDAH, que vem proporcionando um suporte diferenciado aos pacientes.

Nem tudo são rótulos

TDAHAdultos com TDAH sofrem estigmas, mas costumam ser criativos, estratégicos e bons solucionadores de problemas. “O hiperfoco, quando bem direcionado, é uma ferramenta poderosa. Muitos empreendedores e atletas apresentam traços de TDAH, sendo altamente responsivos a novidades e desafios”, frisa Dra. Lana. “Muitos adultos com TDAH sofrem em silêncio, acreditando que são incompetentes, quando, na verdade, apenas não compreendem o funcionamento cerebral. Reconhecer o TDAH, no entanto, é dar um passo rumo a uma vida mais leve e produtiva. Até porque o diagnóstico não é um rótulo. É uma direção. Já o tratamento proporciona aquilo que mais importa para qualquer indivíduo: a liberdade”.