(*) Sthevo Damaceno é jornalista e
editor do jornal Mania de Saúde.
sthevodamaceno@maniadesaude.com.br

Sthevo Damaceno

Por que um livro nunca é demais

Cara Senhora,

Perdoe-me por lhe importunar. Você não me conhece, nem eu a conheço, mas não pude deixar de ouvir sua reprimenda na livraria. Seu filho pediu um livro, entusiasmado, mas, no lugar do presente, recebeu uma negativa. “Aquele outro livro que te dei você ainda não leu!”, foi o seu argumento.

Minha senhora, acredite: já vi esse filme em outras ocasiões. Agora, foi sua vez de protagonizá-lo. Sendo assim, humildemente lhe peço: não faça isso com seu filho. Crianças são mais sensíveis e inteligentes do que imaginamos. É possível que haja alguma dificuldade de diálogo com o garoto – muito educado, por sinal. Mas, se a intenção era evitar outro gasto “desnecessário”, o que não parecia ser o caso, bastava dizê-lo: “não posso comprar esse livro agora; quando puder, voltamos aqui”. Uma simples frase e tenho certeza de que convenceria o garoto, embora desconfie que sua intenção fosse outra.

A propósito, já até peço-lhe desculpas, minha senhora; sei que minha opinião não foi requisitada. Talvez eu esteja até bordeando áreas que, no fundo, não me pertencem. Não sou psicólogo, nem pedagogo: apenas desabafo na condição de leitor que já foi um garoto parecido com o seu. Inclusive, é dessa posição que lhe escrevo.

Não ache ruim que seu filho tenha mais livros do que o necessário, por favor! Leitores são assim mesmo: algumas obras demoram meses, às vezes anos, para dialogarem conosco. Mas só o fato de um determinado volume estar ali, ao nosso alcance, já é a possibilidade de uma leitura repentina, que pode ser arrebatadora.

Deixe o moleque se embrenhar nos livros… Tenho certeza de que você e sua família verão o resultado muito em breve. Daqui a poucos anos, quando a bagagem de leitura do garoto estiver mais sólida, entenderá o que digo. Muitos presentes que ele recebe no dia a dia, por exemplo, vão passar (ou até já passaram). Menos os livros. Garanto que eles permanecerão.

Mas o que sabemos do futuro, não é mesmo, minha senhora? Talvez nada, é claro; mas, veja bem: há exatas duas décadas, eu era apenas um estudante interiorano, sem muitos livros, nem maiores ambições na vida. Mas os títulos que comprei foram me formando ao longo do tempo. Agora estou aqui, escrevendo em um jornal que talvez você nem leia, mas que faz diferença na vida de muita gente. É assim em inúmeras profissões.

Que tal, então, estimular a leitura do garoto? Aproveite o raro desejo dele e também leia um pouco! Há livros para todos os gostos e preferências… Vivo alertando sobre isso nesta coluna aqui, a propósito, mas talvez você esteja me lendo só agora. Não faz mal. É comum as leituras ficarem atrasadas. Seu filho sabe bem disso.

Perdoe-me, por fim, pela intromissão. Não sei nada de sua vida, muito menos conheço o garoto, mas entendo, como ninguém, a impotência que abateu sobre ele no momento em que você tratou o livro como um objetivo inútil e dispensável. Cuidado para não frutificar essa ideia em alguém tão dedicado a aprender! O ambiente mais fértil para a formação do imaginário é o reino da literatura. Por que não abrir essa porta para o garoto e permitir que, por meio dos livros, ele se torne, enfim, apto e livre para o mundo?