(*) Sthevo Damaceno é jornalista e
editor do jornal Mania de Saúde.
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Sthevo Damaceno

A arte de desacelerar

A arte de desacelerarMario Quintana tinha um jeito especial de defender a vida calma, lenta e contemplativa. Em suas intervenções no antigo Caderno H, publicado pelo jornal Zero Hora, de Porto Alegre, o poeta hora ou outra fazia questão de se contrapor ao estilo de vida moderno, como se sugerisse a necessidade de desacelerar antes de nutrir qualquer tipo de ambição.

Para isso, Quintana se valia desde citações até pequenos ensaios ou parábolas, sendo uma delas bastante sugestiva: trata-se da história de um remoto país do oriente, cuja viagem da capital até a fronteira levava cerca de trinta dias, com os viajantes em cima de um camelo.

Até que um engenheiro inglês decidiu, em nome do progresso, resolver aquele problema, sugerindo a construção de uma estrada de ferro, a fim de que a viagem pudesse ser feita em apenas um dia. “Mas”, objetou o governante que ouvira a sugestão com uma paciência verdadeiramente oriental, “o que é que a gente vai fazer dos vinte e nove dias que sobram?”.

O temor de imaginar tantas horas vazias, sem afazeres emocionantes e instagramáveis, deve assustar muitos leitores, especialmente em um mundo repleto de estímulos a cada toque no celular. Mas é interessante refletir sobre esse mecanismo de fuga, quase de temor a um possível tédio, como se o homo sapiens jamais estivesse habituado a viver o dia a dia comum, experienciando apenas sua “estranha vida banal”, como diria Ferreira Gullar.

Há poucos dias, o comunicador Marcus Bruzzo trouxe uma reflexão interessante sobre isso. Dizia ele que a fuga constante do tédio é um dos aspectos que nos impede de alcançar um estado de felicidade. “A gente vincula automaticamente a sensação de que as coisas realmente boas e que geram bons sentimentos sejam derivadas de grandes emoções. Mas o tédio fez parte da vida humana desde sempre”, disse Marcus, que lembrou ainda uma famosa lição de Bertrand Russell.

Como alertava o filósofo britânico, todos nós precisamos aprender a lidar com as diferentes fases da existência, sob pena de não alcançarmos a verdadeira felicidade. “Para levar uma vida feliz é imprescindível a capacidade de suportar algum tédio e é isto que deveria ser ensinado aos jovens”, dizia Russell, que não defendia, por óbvio, uma existência monótona e estagnada, mas sim a habilidade de não se desesperar caso ela ocorra em alguns momentos.

Afinal, somos criaturas vinculadas aos fluxos da terra, como lembra Bruzzo, “no sentido de plantio, colheita, de alimentação, de digestão daquilo que a gente come. Tudo isso demora. Nós somos seres fundamentalmente orgânicos e, portanto, seres demorados, assim como as plantas e os outros animais”. Ou seja: entender nosso ritmo é fundamental para a existência, já que a busca por estímulos e agitação pode até ser emocionante, mas nos afasta do que realmente somos.

Que o novo ano batendo à porta seja uma oportunidade para fomentar essa reconexão, evitar a avalanche de estímulos, criar algumas pausas na rotina e, em vez de temer o tédio, enxergá-lo como um ritmo natural da vida, fazendo parte do caminho para a verdadeira felicidade.