(*) Sthevo Damaceno é jornalista e
editor do jornal Mania de Saúde.
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Sthevo Damaceno

O que as palavras dizem sobre nós

As redes sociais transformaram muitas coisas, mas nenhuma delas me chama tanta atenção quanto a linguagem. Claro que não me refiro propriamente à correção gramatical ou estilística, pois não é preciso ser linguista para saber que cada espaço possui seu próprio modo de expressão, que muda conforme o ambiente e o interlocutor. Uma coisa é escrever um e-mail no trabalho; outra é trocar ideia com um amigo como se estivesse na mesa do bar.

O que me causa espécie é perceber como a linguagem das redes acabou juntando, em muitas situações, os automatismos do marketing digital a uma informalidade repleta de clichês, gerando uma combinação, no mínimo, curiosa. Daí pulularem usuários dizendo que fulano DETONOU sicrano, quando, no fundo, fez apenas uma crítica, às vezes até construtiva… Já cansei de ver comentários, muitos até educados e bem escritos, sofrendo réplicas como se tivessem sido um “ataque” (juro que não consigo dissociar “ataque” de outra coisa que não futebol ou conflito bélico). Há quem esteja apenas cumprindo sua função no trabalho, postando uma imagem, para logo vir alguém dizendo que a pessoa “ENTREGOU TUDO”. De repente, todo mundo virou fenomenal. Fulano é GIGANTE! Mas talvez ninguém esteja preparado para essa conversa. No fundo, é sobre isso.

Todos esses chavões vazios e contaminados me fazem lembrar das famosas “Cartas a um jovem poeta”, de Rainer Maria Rilke, que felizmente está sempre viralizando entre os leitores nas redes. Ali, vemos um dos maiores nomes da literatura alemã ensinando um jovem a perscrutar a própria alma para descobrir, de fato, as razões mais profundas que movem seu pensamento e sua escrita. Uma lição fundamental, aliás, já que as palavras ordenam o mundo. É preciso, no mínimo, refletir sobre elas.

Mas confesso que, apesar de também adorar o livro de Rilke, acabo sempre me lembrando de outro, talvez congênere, que ganha um sabor especial para o leitor brasileiro. Trata-se de “Cartas a um jovem escritor e suas respostas”, que reúne a correspondência entre Mário de Andrade e Fernando Sabino, iniciada por volta dos anos 1940.

Na época, Sabino ainda era um jovem e anônimo escritor de 18 anos que, mesmo sem conhecer pessoalmente o famoso autor paulista, decidiu enviar seus primeiros contos para ele, que já beirava os 50 anos. A resposta de Mário foi emblemática: “Que idade tem você? Isso importa extraordinariamente num caso como o seu. Se você está rodeando os vinte anos, como imagino, seu caso é bem interessante. E o livro, nesse caso, é bom. Mas se você já tem trinta ou trinta e cinco anos, e está homem-feito, não lhe posso dar aplauso. Neste caso, o livro fica medíocre, sem o menor interesse. É apenas um dos muitos”.

Em vez de enxergar as palavras de Mário como um “ataque”, o jovem Fernando Sabino entendeu profundamente o que o escritor paulista estava lhe dizendo. Assim, iniciou uma correspondência prolífica com o autor de “Paulicéia Desvairada”, que acabou mudando sua trajetória como escritor. A última carta de Mário, escrita pouco antes de morrer, não deixou de ser profética para o futuro autor de “O Encontro Marcado”:

“A sua sinceridade por enquanto é a sua espontaneidade. E a sua espontaneidade são dez milhões de crimes humanos, dois mil anos de traição ao Cristo, duzentos anos de burguesia capitalista, vinte e um anos de filhinho de papai, quinze anos de aluno de escolas e professores que ensinaram de acordo com tudo isso. E você sabe que ela não vale um tostão. Agora é que você vai construir a sua “sinceridade” (…) porque agora é que você vai escolher. Até agora escolheram por você. Agora é que você vai saber”.

Num mundo em que os algoritmos buscam nos agradar o tempo inteiro, formando as mesmas bolhas autocongratulatórias de sempre, acaba sendo um alento ler as cartas de Mário de Andrade a Fernando Sabino, vendo um jovem realmente buscando conhecimento e um escritor maduro tratando-o com sinceridade e sem prevenções. De forma inconsciente, Sabino acabou incorporando uma das máximas mais famosas de Mário de Andrade, quando dizia que não devemos servir de exemplo para ninguém, mas podemos servir de lição.