(*) Sthevo Damaceno é jornalista e
editor do jornal Mania de Saúde.
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Sthevo Damaceno

Nem toda amarra é uma prisão

Toda vez que ouço falar de “Os Prisioneiros”, livro de estreia de Rubem Fonseca, penso no simbolismo das grades invisíveis que costumam moldar a experiência humana. No espaço de um dia, ou mesmo de uma vida, é comum nos depararmos com uma série de travas e amarras diferentes, que nos prendem às mais diversas circunstâncias. Talvez você já tenha notado isso ao desligar o celular, por exemplo. Basta permanecer um breve período incomunicável para, logo na sequência, receber um manancial de mensagens que irão nos reatar aos nossos papéis e funções sociais. Como bem lembrou Rubem Fonseca, ao citar Lao Tsé, “somos eternos prisioneiros de nós mesmos”.

Mas ele não foi o único a perceber o fenômeno. Quando retornou de uma temporada na Europa, no final dos anos 1950, o romancista Otto Lara Resende se espantou ao montar sua biblioteca, agora instalada no Rio de Janeiro. Ao reunir todos os seus volumes em um único espaço, Otto se deu conta de que possuía um acervo gigante sobre o sistema prisional, devido à sua atuação na área do Direito, que o levava a visitar presídios e adquirir livros sobre o assunto. Porém, o que espantava o escritor não era apenas essa divisão temática, mas sim a descoberta de que, de algum modo, todos nós somos carcereiros de nossas próprias obsessões, agindo como “presidiários na vida”, “prisioneiros das nossas escolhas e vontades”, como ele disse certa vez em um programa de TV.

Mas quem de fato viveu essa experiência na pele foi outro escritor: Graciliano Ramos, encarcerado pelo governo de Getúlio Vargas por uma suposta participação na célebre “Intentona Comunista” de 1935. Ao ser jogado em celas improvisadas, depois em um porão de navio, para enfim ser conduzido ao Rio de Janeiro, o autor de “Vidas Secas” se surpreendia ao ver as diferentes realidades às quais seus companheiros de infortúnio estavam amarrados. “Havia entre eles homens de várias classes, das profissões mais diversas, muito altas e muito baixas, apertados nelas como em estojos. Procurei observá-los onde se achavam, nessas bainhas em que a sociedade os prendeu”, escreveu Graciliano em seu célebre “Memórias do Cárcere”.

Ainda bem que, como disse o próprio Graciliano, é indispensável ter na vida um mínimo de tranquilidade, afastar as miseriazinhas que nos envenenam. Nem só de tons escuros vivem essas bainhas. Muitas costuras são feitas por nós mesmos e podem ganhar tonalidades mais leves, alegres, como quando nos amarramos a um hobby específico, ao cuidado com os entes queridos, à memória dos nossos antepassados e assim por diante. Essa tessitura fica ainda mais rica, claro, quando nos rendemos a uma paixão irrefreável, a ponto de nos perdermos nos olhos da pessoa amada, talvez sentindo aquilo que Gilberto Gil cantou para Flora Gil em “A linha e o linho”: “É a sua vida que eu quero bordar na minha / como se eu fosse o pano e você fosse a linha / e a agulha do real nas mãos da fantasia / fosse bordando ponto a ponto nosso dia a dia”.

Talvez seja essa a grande diferença entre amarras e laços, entre as prisões que nos encarceram e aquelas às quais nos entregamos voluntariamente. Ao longo da vida, também somos costureiros da nossa própria existência, formando tapeçarias capazes de nos proteger das agulhadas que o destino nos impõe. E, entre todos esses fios, nenhum parece mesmo tão poderoso quanto o amor, que nos concede uma liberdade impossível diante dos outros. Talvez por isso Nelson Rodrigues tenha dedicado tantas páginas ao amor eterno, incapaz de aceitar a própria finitude, revelando ao ser humano partes que permanecem fechadas para o mundo, já que só o ser amado “tem o direito de olhar até para um simples decote”, atado à intimidade “daquela linha nítida, tão nítida, que separa os seios”.