O propósito que nasce da travessia

Há momentos em que a vida deixa de pedir respostas e começa a exigir ação

A cada desconforto de tédio rompido, a intimidade e a confi ança vão ganhando espaço para conversas mais profundas e uma relação mais saudável entre a gente

A busca por um sentido real não costuma nascer de certezas organizadas, mas de deslocamentos internos que acontecem em silêncio.

É quando aquilo que antes parecia suficiente já não explica mais o que se sente, nem sustenta o que se vive.
Foi assim que tudo começou para mim.

No início, havia apenas um entendimento simples, mas profundamente desafiador: é preciso ensinar uma adolescente a lidar com a frustração, exatamente como venho escrevendo aqui nos últimos meses.

E, ao olhar para isso com honestidade, percebi algo inevitável, não é possível ensinar aquilo que ainda não foi atravessado, para orientar a Sophya no caminho de aprender a lidar com o tédio, eu também precisaria me permitir viver esse processo antes, sem atalhos, sem resistência.

Não fazia sentido para mim dizer a ela para aprender a ficar sem o celular ou qualquer outra distração se eu não praticava o mesmo.

Cheguei a trocar com algumas mães a respeito do assunto, sobre um vídeo que assisti de uma mãe que estipulou que ela e a filha de cinco anos ficariam cinco minutos diariamente, frente a frente, sem fazer nada, sem distrações de TV ou telefone e o quanto ela descobriu sobre a filha, coisas que a menina nunca havia falado antes e por causa do silêncio ela podia saber agora.

O silêncio nos estimula a pensar.

Uma amiga em especial achou a ideia fantástica, até ela colocar em prática com a caçula… e, com uma clareza e sinceridade que poucos de nós mortais têm, ela me confessou que ficar no celular era mais confortável do que brincar com a filha. E, tudo bem! O que vivemos atualmente é exatamente isso. Permitimos que as crianças e adolescentes fiquem em seus telefones e tablets para que não tenhamos que mexer na nossa rotina tão exaustiva, somos humanos.

E, foi aí que algo se deslocou dentro de mim. Não de forma abrupta, mas contínua, como tudo aquilo que realmente transforma.

Esse movimento coincidiu com um período de oração, estudo e silêncio interior que começou em janeiro e segue até aqui. Um tempo em que a fé deixou de ser apenas conceito e passou a ser prática diária de escuta.
Os estudos bíblicos trouxeram naturalmente um desejo de servir. E eu comecei a servir na igreja, mas, mesmo dentro desse lugar de entrega, algo permaneceu latente: o desejo de compreender com mais clareza qual é, de fato, o meu propósito.

Ao aprender a lidar com o silêncio e o ouvir de Deus me deparei com uma ideia que me atravessou de forma inesperada: “o seu propósito não é o que você faz bem, mas o problema que você viveu e aprendeu a lidar.”

Isso não me trouxe uma resposta imediata, mas abriu uma fenda de reflexão.

Porque ela desloca o propósito do campo da performance para o campo da travessia. E isso muda tudo.
Por aqui a Sophya continua administrando a agenda diária dela com várias ocupações com um tempo específico para o “nada” e eu também com o meu período de silêncio.

É muito interessante e perceptível o momento em que o desconforto do tédio é rompido com conversas, risadas e a intimidade e confiança devolvidas à relação com a sua criança e adolescente. Vale experimentar!
Se dê a chance de viver esse desconforto.

Sobre o meu propósito, prometo que, ao defini-lo, venho contar para vocês nos próximos meses.