O Dia das Mães já passou e trouxe grandes celebrações entre famílias, mas também muitas oportunidades de reflexão. Afinal, para muitas mulheres, o exercício da maternidade também abre espaço para sentimentos de autocobrança, que se manifesta de diversas maneiras no cotidiano. São mulheres, por exemplo, que se sentem pressionadas a serem perfeitas, a gerenciarem todas as demandas familiares, não raro sofrendo críticas por se dedicarem ao trabalho ou mesmo por algum comportamento dos filhos, como se fosse possível dar conta de todas as exigências sem falhas e sem desgaste. O preço, claro, é o mesmo: sobrecarga e prejuízos à saúde mental.
É o que revela, ao Mania de Saúde, a psicóloga Nathália Gomes. “Na minha prática clínica, a autocobrança em mães se manifesta principalmente com sentimentos de insuficiência e até dúvidas sobre a própria capacidade de exercer os diferentes papéis na vida, como ser mãe, esposa e profissional. Os principais impactos no bem-estar emocional são: irritabilidade, ansiedade, diminuição do prazer em tarefas diárias, problemas no sono e humor deprimido”, ressaltou Nathália.

Segundo dados da pesquisa “De Mãe em Mãe”, realizada por pesquisadores da USP com foco na saúde mental das mães brasileiras, 97% das mulheres se sentem sobrecarregadas quase todos os dias da semana e 94% dizem que estão desgastadas. O levantamento, divulgado pela TV Cultura, revelou que duas a cada três mulheres classificam a saúde mental como péssima e mais da metade das entrevistadas já precisou recorrer à ajuda profissional. Como se não bastasse, 75% contaram que já tiveram um comportamento explosivo e sentiram culpa.
Esse cenário acaba levantando uma questão importante: como diferenciar uma postura responsável e comprometida de um padrão de autocobrança excessiva que leva ao esgotamento? “Essa é uma excelente pergunta para refletirmos sobre quão problemática pode ser a definição do que é ser ‘responsável’, em nossa cultura. É muito comum associarmos responsabilidade com se preocupar, em excesso, com tudo, e ultrapassar nossos próprios limites ao visar atender todas as demandas existentes”, afirma Nathália. “Portanto, se pudéssemos trazer uma definição mais saudável de responsabilidade, uma postura responsável significaria se propor a fazer o que foi estabelecido, desde que tais demandas respeitem seus próprios limites e estejam de acordo com o que se quer construir”, explicou.
Nessas horas, o apoio oferecido pela psicoterapia se torna ainda mais necessário, já que ajuda a ressignificar essa noção de responsabilidade, abordando todos os quesitos que levam à autocobrança excessiva. “As principais estratégias trabalhadas com pacientes sobrecarregadas e que se cobram muito são, principalmente: o gerenciamento da rotina, delegação de tarefas, comunicação assertiva para o estabelecimento de limites, fortalecimento da autoestima e da autoeficácia, autocompaixão e estratégias para o manejo das emoções”, destacou a psicóloga, ressaltando também a necessidade de redes de apoio mais efetivas, capazes de acolher as mães para além dos ideais de perfeição.
