Saúde mental feminina pede atenção urgente

Saúde mental femininaEspecialistas chamam a atenção para outros contextos de vida, como a realidade de mães de filhos neuroatípicos

Você certamente já deve ter ouvido falar que o ano só começa após o carnaval. Mas nem poderia ser diferente. Afinal, esse é o período em que a maioria da população deixa para trás o clima de descanso e o lazer típico do verão para reorganizar a própria rotina, ajustando o calendário para cumprir os mais diversos afazeres. Mas, dentre tantas metas e preocupações, existe um elemento que não pode passar despercebido na hora de planejar o novo ano, especialmente para as mulheres. Estamos falando da saúde mental.

Dados recentes da OMS indicam, por exemplo, que o público feminino possui hoje uma propensão maior a apresentar e relatar transtornos depressivos e de ansiedade quando comparado ao público masculino, com fatores sociais e biológicos contribuindo para essa diferença. Além disso, o Panorama da Saúde 2025, feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), demonstrou que mulheres com mais de 45 anos relatam níveis significativamente mais baixos de bem-estar e saúde mental, especialmente pelos inúmeros papéis que precisam desempenhar no dia a dia.

“Embora transtornos como ansiedade e depressão possam atingir qualquer indivíduo, na nossa prática clínica vemos, sim, um alto número de pacientes mulheres nos consultórios, que são bastante impactadas por um acúmulo de fatores emocionais e sociais típicos do mundo moderno”, afirma a médica psiquiatra Dra. Lana Maria Pereira. “Isso abrange não apenas questões fisiológicas, mas também os novos contextos de vida e de mercado de trabalho, que trazem sobrecarga para as mulheres. Relações afetivas desgastantes, jornadas extensas, disparidade salarial e a tendência de priorizar o cuidado com o outro em detrimento de si mesmas também tornam esse cenário ainda mais desafiador”.

Saúde mental femininaOutro ponto importante, segundo Dra. Lana, diz respeito a contextos específicos de vida, que tendem a intensificar a sobrecarga emocional enfrentada por muitas mulheres e demandam um olhar ainda mais cuidadoso. Um exemplo, nesse sentido, são as famílias que convivem com filhos neuroatípicos, como crianças e adolescentes com TEA ou TDAH, já que pesquisas recentes demonstram uma tendência a níveis elevados de estresse parental, inclusive associados a uma piora da saúde mental dos cuidadores, sobretudo das mães.

“Hoje em dia, muito se fala em TEA e TDAH, mas quem está de fora dificilmente sabe, de fato, como é a rotina de pais com filhos neuroatípicos. Tratam-se de famílias que lidam com demandas emocionais intensas, dificuldades escolares, desafios no convívio social e, muitas vezes, com a sensação constante de estarem em estado de alerta. Além disso, nem sempre essas famílias estão amparadas por um suporte profissional adequado, não possuindo sequer uma rede de apoio qualificada para oferecer auxílio quando necessário. Isso gera um impacto enorme na saúde mental, especialmente das mães, que acabam assumindo a maior parte do cuidado”, alerta Dra. Lana.

Nesse contexto, como ressalta a especialista, o suporte psiquiátrico não deve ser visto como um sinal de fragilidade, mas como uma ferramenta de cuidado e sustentação emocional. “Acolher essas mães significa reconhecer que suas experiências são diferentes dos moldes familiares tradicionais e que os desafios vão além do amor e da dedicação. É essencial oferecer um espaço de escuta qualificada, orientação e tratamento quando necessário, para que consigam cuidar de si enquanto cuidam dos filhos, reforçando assim o amor e o autocuidado”.