(*) Sthevo Damaceno é jornalista e
editor do jornal Mania de Saúde.
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Sthevo Damaceno

O escritor e sua mãe

A literatura é cheia de histórias envolvendo figuras maternas, que perpassam os mais diferentes gêneros literários. Mas sempre gosto de observar, também, como é a relação dos próprios escritores com suas respectivas mães, já que por vezes colecionam histórias interessantes e memoráveis em seus papéis como filhos. O maior exemplo que me vem à cabeça é o do argentino Jorge Luis Borges e de sua mãe, Leonor Acevedo Suárez.

Afinal, mais do que uma figura biográfica, Leonor Acevedo se tornou quase uma instituição literária na vida do escritor portenho. Basta lembrar como Borges sempre evocava alguma história sobre a mãe em muitas das entrevistas que concedeu ao longo da carreira, além de a própria Leonor ter se tornado sua leitora e guia cotidiana após a cegueira que o atingiu na década de 1950.

Apesar de muitos dos contos de Jorge Luis Borges possuírem um caráter fantástico, que acabam deixando um pouco de fora sua própria biografia, Leonor Acevedo participou indiretamente do espírito criativo do mestre argentino. Afinal, ela contribuiu para fornecer a Borges um vasto repertório de memórias familiares e históricas, que alimentaram boa parte de seu imaginário literário e que aparecem em sua produção.

Seja em obras como “Ficções” ou em “O Aleph”, em muitas passagens de Jorge Luis Borges surgem, por exemplo, figuras que participaram das guerras civis, especialmente o período de Rosas, marcando a formação da Argentina moderna. Essas histórias domésticas foram profundamente enraizadas em seu imaginário por Leonor Acevedo.

O próprio comportamento de Borges, com seu ar aristocrático, sempre com referências ao passado da família, deve-se à presença inequívoca da mãe na formação de sua personalidade, inclusive na elegância que lhe era característica. “Minha mãe tem muito a ver com a essência de minha obra. Ela é um pouco a alma e o espírito que a impulsionam”, declarou Borges ao jornal Última Hora, em julho de 1975.

Outro dado curioso foi a convivência na vida adulta. Afinal, embora tenha alcançado fama no mundo inteiro e viajado por dezenas de países, Borges passou a maior parte de sua vida essencialmente vivendo com a mãe, no centro de Buenos Aires. Esse convívio foi interrompido apenas pelo breve casamento de Borges com Elsa Astete Millán, em 1967, quando o escritor já tinha quase 70 anos. A união durou apenas três anos, sendo marcada por distanciamento e pouca compatibilidade entre os dois. Em seguida, contudo, o escritor passou a viver com Leonor Acevedo, acompanhando-a até a morte dela, em 1975, fato que o deixou ainda mais aberto a contar sobre a relação com a mãe aos seus inúmeros entrevistadores.

Mas o gesto mais bonito, sem dúvida, foi por ocasião das Obras Completas de Borges, que se tornaram um dos grandes acontecimentos do mercado editorial argentino em sua época. Isso porque, tendo publicado vários livros desde a juventude, e se tornado o maior nome da literatura portenha, era enorme a expectativa pela reunião dos livros dele, o que ocorreu em 1974, pela editora Emecé.

Ao lançar as aguardadas Obras Completas, Borges dedicou-as à Leonor, escrevendo um dos seus prólogos mais memoráveis, onde agradecia à mãe enumerando diversas memórias e vivências que tivera com ela ao longo do tempo, colocando-a no ponto mais alto de sua carreira. E, ao final, dirigia a Leonor uma última confissão: “Aqui estamos falando os dois, et tout le reste est littérature, como escreveu, com excelente literatura, Verlaine”.