Apesar de acessível, uso da substância requer cuidados
Muita gente hoje em dia tem buscado atalhos para lidar com a dificuldade de dormir. Noites maldormidas, despertadores que tocam cedo demais, excesso de telas, estresse constante e rotinas irregulares fazem com que manter um sono de qualidade seja um desafio cada vez mais comum. Em vez de reorganizar hábitos ou procurar ajuda profissional, cresce a busca por soluções rápidas e acessíveis, especialmente suplementos que prometem facilitar o sono. É nesse contexto que a melatonina entrou em evidência, impulsionada pela ideia de que bastaria ingerir algo simples para “regular” o descanso, o que ajuda a explicar a expansão acelerada desse mercado nos últimos anos.
A melatonina é um hormônio produzido naturalmente pelo organismo, principalmente pela glândula pineal, e tem papel central na regulação do ciclo do sono e da vigília. Sua liberação aumenta à noite, em ambientes escuros, sinalizando ao corpo que é hora de dormir, e diminui com a luz e durante o dia. Em forma de suplemento, ela passou a ser consumida por pessoas que enfrentam dificuldade para adormecer, jet lag ou alterações no ritmo biológico. O problema é que, apesar de ser frequentemente associada a algo “natural”, o uso externo do hormônio não equivale ao funcionamento fisiológico normal do corpo e não resolve, por si só, as causas do sono desregulado.
O uso indiscriminado da melatonina também envolve riscos. Efeitos como sonolência excessiva durante o dia, tontura, dor de cabeça e desconfortos gastrointestinais podem ocorrer, especialmente quando a dose não é adequada. Há ainda preocupações quanto ao uso prolongado e ao consumo por grupos específicos, como crianças, gestantes e pessoas com doenças crônicas ou que fazem uso contínuo de medicamentos. Além disso, ao mascarar o problema, o suplemento pode atrasar o diagnóstico de distúrbios do sono que exigiriam outra abordagem. Por isso, especialistas alertam que a melatonina não deve ser vista como uma solução simples e universal, mas como algo que precisa ser avaliado com cautela e, idealmente, com orientação profissional.
Recentemente, pesquisadores que apresentaram dados durante o congresso Scientific Sessions 2025, realizado nos Estados Unidos, indicaram que o uso prolongado de suplementos de melatonina pode estar associado a um maior risco de insuficiência cardíaca em alguns pacientes. Os próprios autores ressaltaram que os achados ainda carecem de novos estudos, capazes de esclarecer melhor essa relação e seus mecanismos. Ainda assim, o alerta reforça uma questão importante: suplementos não são isentos de riscos e devem ser utilizados com orientação profissional, especialmente quando se trata da regulação do sono, um problema complexo, que afeta pessoas de diferentes idades e dificilmente se resolve apenas com a ingestão de um simples comprimido.
