Ácido folínico e autismo: o que a ciência realmente diz

Ácido folínico e autismoNos últimos anos, o ácido folínico tem aparecido em discussões científicas relacionadas ao transtorno do espectro autista (TEA). O tema ganhou visibilidade entre profissionais de saúde e famílias por envolver aspectos do metabolismo do folato e da bioquímica cerebral. No entanto, especialistas alertam que o assunto exige interpretação cuidadosa e baseada em evidências.
O ácido folínico, também chamado de leucovorina, é uma forma biologicamente ativa do folato, derivado da vitamina B9. Diferentemente do ácido fólico sintético, ele já se encontra em uma forma que o organismo consegue utilizar diretamente em diversas reações metabólicas, incluindo processos de metilação, síntese de neurotransmissores e formação de DNA.

Ácido folínico e autismo
A nutricionista Dra. Adriana Marinho

Pesquisas científicas vêm investigando a relação entre alterações no metabolismo do folato e alguns subgrupos de pacientes com autismo. Uma das hipóteses envolve a chamada deficiência cerebral de folato, uma condição em que o transporte de folato para o cérebro pode estar comprometido. Em parte desses casos, são encontrados autoanticorpos contra o receptor de folato alfa, que dificultam a entrada do nutriente no sistema nervoso central.

Alguns estudos clínicos observaram que, nesses subgrupos específicos, a suplementação com ácido folínico pode estar associada à melhora em áreas como linguagem e interação social. Ainda assim, os pesquisadores reforçam que esses resultados não devem ser generalizados para todas as pessoas no espectro.

Para abordar o tema, ouvimos a Dra. Adriana Marinho, nutricionista com pós-graduação em Alergia Alimentar, Genética Médica e Nutrição aplicada ao Autismo, TDAH e Síndromes Genéticas. Atuando com abordagem integrativa e nutrigenética, voltada à avaliação metabólica e nutricional individualizada de crianças e adultos, ela também ministra aulas e cursos para profissionais da saúde nas áreas de neurodesenvolvimento e interpretação funcional de exames laboratoriais. Com essa experiência, ela ressalta que o autismo apresenta grande diversidade biológica, o que reforça a necessidade de saber interpretar os exames laboratoriais de forma integrada e correlacionada à história clínica do paciente.

“Não existe um suplemento universal para o autismo. O que existe são pacientes com diferentes perfis metabólicos. Em alguns casos, alterações na via do folato podem estar presentes, mas isso precisa ser investigado com critério”, explica.

Entre os fatores investigados está a presença de polimorfismos genéticos relacionados ao metabolismo do folato, como variantes no gene MTHFR (metilenotetrahidrofolato redutase). Esse gene participa da conversão do folato em formas metabolicamente ativas utilizadas pelo organismo.
Algumas variantes genéticas podem reduzir a eficiência dessa conversão e influenciar processos importantes, como o metabolismo da homocisteína, a síntese de neurotransmissores e os mecanismos de metilação celular. Ainda assim, especialistas ressaltam que a presença dessas variantes não determina o desenvolvimento do autismo nem indica automaticamente a necessidade de suplementação.

“A genética pode indicar vulnerabilidades metabólicas, mas não define um protocolo único. O mais importante é olhar o paciente de forma integrada, considerando clínica, exames laboratoriais, alimentação e histórico de desenvolvimento”, afirma Dra. Adriana Marinho.

Nesse contexto, intervenções nutricionais e suplementares podem ser consideradas quando existe indicação clínica individualizada, sempre como parte de um cuidado integrado que envolve acompanhamento médico, terapias de desenvolvimento e suporte familiar.