Esse cuidado pode salvar a vida do seu filho

Dra. Lana Maria Pereira - Traços de sociopatia
A médica psiquiatra Dra. Lana Maria Pereira

As redes sociais estão cheias de ideias que pouco dialogam com a realidade. Basta, por exemplo, observar a enxurrada de reações diante de casos de adolescentes agressivos que viralizam no Instagram ou no TikTok. Nessas horas, sempre aparecem comentários sobre uma possível “falta de corretivo dos pais” ou até outras medidas drásticas, como se o problema admitisse respostas fáceis. Quando a notícia envolve crimes praticados por menores, então, os julgamentos se tornam ainda mais contundentes, provocando até mesmo discussões sobre sociopatia, que muitas vezes carecem do respaldo técnico adequado.

Mas como, afinal, proteger as crianças desse tipo de comportamento? Quais sinais os pais devem identificar para garantir a segurança dos filhos? Será que uma criança rebelde apresenta, necessariamente, traços de sociopatia? Para abordar o assunto, que ganha cada vez mais espaço nas redes sociais, o Mania de Saúde ouviu a médica psiquiatra Dra. Lana Maria Pereira, que destaca a necessidade de cautela na utilização desses termos, visando assegurar uma abordagem adequada a cada caso.

“Antes de mais nada, é importante compreender que a personalidade se estrutura com o tempo. Por isso, tanto o CID-11 quanto o DSM-5, que são os sistemas de classificação de transtornos mentais utilizados em todo o mundo, impedem o diagnóstico de transtorno de personalidade antes dos 18 anos. Isso porque a personalidade, em si, ainda está em processo formativo. Os traços comportamentais podem se alterar ao longo do tempo, conforme as vivências da pessoa, os vínculos afetivos e os desafios contextuais, contraindicando, portanto, fechar um diagnóstico tão precocemente”, afirma Dra. Lana. “O que a gente consegue é observar padrões desfuncionais de comportamento e agir em cima deles, mas jamais rotular como transtorno estrutural, porque tudo ainda está em processo de desenvolvimento”, alerta.

Traços de sociopatiaSegundo Dra. Lana, estar atento a condutas atípicas pode ajudar os pais a determinar o momento adequado para buscar suporte profissional. “É importante observar comportamentos como mentiras manipuladoras, falta de empatia ou culpa após atitudes cruéis, agressividade gratuita, dificuldade de estabelecer vínculos afetivos, violação intencional de regras, prazer em causar sofrimento a pessoas ou animais, entre outros. Cabe lembrar, entretanto, que rebeldia não é transtorno de conduta. Existem adolescentes rebeldes porque a adolescência é um tempo de conflito. A questão é quando essas atitudes ultrapassam o aceitável e prejudicam os outros repetidamente, sem qualquer sinal de remorso. Isso, sim, merece maior atenção”, disse.

Identificar esses comportamentos em estágios iniciais, como frisa a médica, é essencial para garantir uma intervenção adequada e evitar problemas mais sérios, como criminalidade, dependência química, isolamento social e ideação suicida. “A abordagem geralmente é multidisciplinar, envolvendo avaliação psiquiátrica e, quando necessário, uso de medicação. Há também a psicoterapia com foco no desenvolvimento de empatia, controle da raiva e autorregulação emocional, bem como orientação familiar, que é de suma importância nesse processo. O tratamento não busca moldar a personalidade, mas ele tende a interromper um padrão desfuncional antes que se cristalize. Por isso, quanto mais cedo intervir, melhor”.

Dra. Lana lembra, por fim, que muitos comportamentos disfuncionais podem esconder situações delicadas, demandando assim uma atenção especial. “Há casos, por exemplo, em que é necessário acionar o Conselho Tutelar e outros órgãos competentes, porque a criança pode estar sendo vítima de abuso, seja em casa ou na escola. Condutas atípicas são sinais que precisam ser levados a sério. E é importante dizer aos responsáveis que eles precisam também aprender a colocar limites e buscar ajuda profissional quando necessário. Isso não significa que fracassaram como pai ou como mãe. Significa, na verdade, que estão compromissados com o desenvolvimento e a saúde emocional dos seus filhos”.