Juventude e academia não blindam contra o AVC

A neurologista Dra. Mariana Soares, que integra a equipe médica da Clínica Santa Maria

Incidência cresce na faixa dos 18 aos 49 anos e adultos jovens já representam até 15% dos diagnósticos globais

O adulto jovem moderno vive no limite: sofre com o esgotamento mental gerado pelo estresse corporativo e tenta compensar a privação de sono com estimulantes para manter o rendimento no trabalho. O uso indiscriminado de suplementos, pré-treino potentes, altas doses de cafeína, remédios para emagrecer ou substâncias para ganho de massa muscular age como uma verdadeira bomba-relógio no organismo, problematizando ainda mais esse processo.

Afinal, quando um corpo já inflamado e exausto pelo estresse recebe essa carga química intensa, sendo submetido a um esforço físico extremo, ocorre a chamada tempestade perfeita. “A pressão arterial dispara e os vasos sanguíneos se contraem rapidamente. O sistema entra em colapso mecânico: uma artéria no pescoço ou no cérebro pode se romper, ou um coágulo pode se formar rapidamente”, alerta a neurologista Dra. Mariana Soares, que integra a equipe médica da Clínica Santa Maria. “Essa é a explicação trágica para o AVC acontecer em alguém que, olhando de fora, parecia o retrato da saúde e da produtividade”, acrescentou.
Segundo Dra. Mariana, juntamente com esses novos perigos, há ainda o uso crescente dos cigarros eletrônicos (vapes). Mas existe também um alerta clássico para as mulheres: a combinação de enxaqueca (principalmente aquela com alterações visuais, a chamada aura), tabagismo e o uso de algumas pílulas anticoncepcionais, que exigem orientação neurológica. Esses fatores demonstram como as discussões em torno do AVC já transcenderam as barreiras etárias, o que se reflete no próprio atendimento médico.

“No meu dia a dia, atendendo desde crianças a idosos, percebo que uma das maiores barreiras no tratamento do AVC, o popular ‘derrame’, é a desinformação. Existe um mito fortíssimo de que o AVC é uma exclusividade da terceira idade ou de que o corpo sempre vai dar um aviso prévio. Acreditar nisso atrasa diagnósticos e impede tratamentos que, literalmente, salvam vidas. A realidade clínica é outra: o AVC não escolhe idade, afeta até pacientes pediátricos, e os seus maiores fatores de risco não costumam causar dor alguma”, diz a médica.

Independentemente da idade, um erro comum é aguardar sinais como dor para buscar avaliação médica, já que os maiores agressores do cérebro são silenciosos, como lembra a especialista. “Condições como a hipertensão crônica e a fibrilação atrial (uma arritmia que ‘descompassa o coração’) raramente provocam mal-estar prévio, mas agem de forma contínua no organismo, aumentando silenciosamente o risco de AVC. O controle rigoroso da pressão arterial e a realização de exames cardiológicos de rotina são, na prática, as medidas mais absolutas e eficazes para proteger o cérebro”.

 

Como reconhecer o AVC rapidamente?

Muitas pessoas acham que o AVC causa desmaios dramáticos ou dor no peito, mas os sinais neurológicos costumam ser bem específicos. Para memorizar e agir na hora do desespero, basta seguir a regra do SAMU: S (Sorriso): Peça para a pessoa sorrir. O rosto entortou ou um lado repuxou? A (Abraço): Peça para ela levantar os dois braços. Um deles cai por falta de força? M (Mensagem): Peça para ela repetir uma frase simples. A fala está arrastada, enrolada ou confusa? U (Urgência): Se notar qualquer um desses sinais, é urgência médica imediata.

“O maior erro que vejo as famílias cometerem é decidir ‘deitar o paciente para ver se passa’ ou tentar dar remédios de pressão por conta própria. No tratamento do AVC, a nossa regra de ouro é clara: tempo é cérebro. A cada minuto sem fluxo sanguíneo, milhões de neurônios morrem. Hoje, a neurologia possui tratamentos incríveis para desobstruir artérias e reverter sequelas, mas nossa janela de tempo para usá-los é muito curta. Portanto, não espere. Buscar avaliação médica especializada rapidamente é, no fim das contas, o que define a qualidade da recuperação e o futuro do paciente”.