Cuidar vai além do parentesco

 Cuidar vai além do parentescoPsicóloga explica como as novas dinâmicas familiares impactam a formação das crianças

Não é de hoje que o conceito de família vem evoluindo na sociedade, refletindo as mudanças na forma como as pessoas criam laços afetivos. Esse contexto de novas configurações familiares também exerce uma grande influência na formação das crianças, fazendo com que tios e avós cumpram um papel essencial na dinâmica familiar, especialmente quando os pais não conseguem estar presentes no dia a dia. Se antes os parentes eram figuras vistas apenas nos almoços de família aos domingos, hoje assumem diferentes responsabilidades, muitas vezes tornando-se até provedores, ocupando um espaço que vai muito além do parentesco.

A psicóloga Nathália Gomes - Cuidar vai além do parentescoPara abordar o tema, o Mania de Saúde ouviu a psicóloga Nathália Gomes, que vem percebendo essas transformações em seu atendimento. “Há diversas mudanças relacionadas às configurações familiares que observo na clínica e que fogem à configuração mãe, pai e filho(a). É bastante comum, por exemplo, observar o papel ativo dos avós na criação dos netos quando os pais não puderam estar presentes por algum motivo. Também é possível observar configurações familiares compostas por casais homoafetivos, assim como é bastante frequente a inclusão de animais de estimação como membros legítimos da família, de modo que, por vezes, eles são chamados de filho(a)”, disse.

Segundo a psicóloga, o surgimento de novos agentes na dinâmica familiar também repercute na parte emocional. “Os impactos emocionais advindos da criação das crianças e adolescentes por outros responsáveis, para além dos pais, dependem justamente do modo como tal criação se desenvolveu, haja vista que, se esta relação garantiu suporte emocional, autonomia do sujeito, criação de limites e das necessidades básicas, tais fatores aumentam as chances de o sujeito desenvolver, por exemplo, uma melhor autoestima, autoeficácia, melhor manejo das emoções e relações futuras funcionais”, explicou.

Outra percepção bastante recorrente, dentro desse assunto, é a presença das tias na criação de meninas, ampliando o suporte ao longo de diferentes fases do desenvolvimento. Em contraste com a participação masculina, que em muitos casos tende a ser mais tímida na criação de meninos, as tias contribuem para reforçar orientações transmitidas pelas próprias mães, além de assumirem esse papel de forma mais direta em alguns contextos familiares.
“Não se trata de uma regra rígida para todas as famílias, mas, ao falar especificamente das tias, elas podem desempenhar papéis relevantes na criação de meninas e adolescentes, incluindo práticas no cuidado diário, oferta de suporte emocional, educacional e transmissão de valores culturais, apresentando um importante papel no desenvolvimento social e emocional do sujeito”, ressalta Nathália Gomes.

Diante desse cenário, fica evidente que o desenvolvimento infantil não está condicionado a um único modelo de família, mas à consistência do cuidado oferecido pelos responsáveis. Mais do que a configuração familiar, é a constância do cuidado e a solidez dos vínculos que sustentam o desenvolvimento infantil, influenciando a forma como crianças e adolescentes se relacionam com o mundo.