Luto gestacional: um olhar necessário

Dor na hora da relaçãoPerder um filho é, sem dúvidas, a mais profunda dor que um ser humano pode enfrentar. Quando isso acontece no próprio processo gestacional, então, o desafio torna-se ainda maior, sobretudo pelas expectativas geradas em torno do nascimento. É nesse contexto que o luto materno passou a receber uma atenção crescente das autoridades de saúde, sendo finalmente reconhecido também no campo das políticas públicas.

Prova disso é a Lei 15.139, que cria a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental. Sancionada em junho deste ano, a lei garante cuidados humanizados e apoio psicológico a mulheres e familiares que enfrentam a perda de um bebê durante a gestação, no parto ou logo após o nascimento, tendo o objetivo de oferecer acolhimento digno e assistência integral às famílias.

Conforme informou a Agência Senado, a norma prevê o amparo a pessoas em luto gestacional (morte do feto até a 20ª semana de gravidez), óbito fetal (após a 20ª semana) ou óbito neonatal (nos primeiros 28 dias de vida). Um dos pontos previstos é o direito a apoio psicológico especializado, exames que investiguem as causas das perdas e acompanhamento da saúde mental durante gestações posteriores, sendo obrigatória a capacitação de profissionais de saúde para lidar com situações de luto parental e seus diferentes desdobramentos.

Afinal, trata-se de uma experiência profundamente íntima e dolorosa, com impactos significativos na vida da mulher e de todos que vivenciam a perda. O cuidado dedicado a elas faz toda a diferença nesse processo, já que a combinação das mudanças hormonais, do desgaste físico e da perda do recém-nascido eleva consideravelmente a probabilidade de a mulher desenvolver transtornos psíquicos, o que reforça ainda mais a necessidade de atenção especializada.

A psiquiatra Dra. Carmita Helena Najjar Abdo, membro da Comissão Nacional Especializada em Sexologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), explica que o luto materno pode desencadear quadros depressivos graves — e que o acolhimento adequado é essencial para a saúde da mulher. “Se essa depressão for leve e passageira, é chamada de blues. Mas podem ocorrer situações mais graves, inclusive com características psicóticas. Imagine uma mulher que dá à luz e, em seguida, perde o bebê. Se ela já tiver tendência depressiva, pode desenvolver um quadro severo, dependendo de fatores como genética, recursos internos, rede de apoio e seu histórico de vida”, disse a especialista, em texto publicado no portal da instituição.

Para Dra. Carmita, o primeiro passo é avaliar o quanto esse luto afetou a saúde física e emocional da mulher. “Em razão da depressão, ela pode deixar de se alimentar adequadamente, ter distúrbios do sono e isso compromete o corpo também. Um acompanhamento cuidadoso, feito por psicólogo e/ou psiquiatra, é fundamental”.