Quando falamos de inclusão no mercado de trabalho, ainda estamos longe de compreender a complexidade das barreiras enfrentadas por quem carrega mais de uma marca social da exclusão. Mulheres com deficiência vivem uma realidade marcada por silêncios, estigmas e oportunidades negadas — uma interseccionalidade que raramente é abordada com a devida profundidade nas políticas públicas ou nas práticas corporativas.
O último Censo do IBGE apontou que cerca de 8,4% da população brasileira possui algum tipo de deficiência. Desse total, mais da metade são mulheres. No entanto, a presença delas no mercado de trabalho é drasticamente inferior à dos homens com deficiência ou das mulheres sem deficiência. Muitas sequer chegam a disputar uma vaga, não por falta de qualificação, mas por um sistema que as exclui antes mesmo da possibilidade.
A mulher com deficiência enfrenta o preconceito duas vezes: por ser mulher e por ser uma pessoa com deficiência. Esse duplo apagamento se reflete não apenas nas taxas de empregabilidade, mas também na forma como são tratadas dentro dos espaços de trabalho — quando conseguem acessá-los. Pouco se fala sobre acessibilidade de gênero, sobre adaptações que considerem as necessidades específicas dessas mulheres, ou mesmo sobre como acolher de forma humanizada quem já precisou vencer tantas barreiras só para estar ali.
Enquanto os debates sobre equidade de gênero avançam em algumas esferas e os programas de diversidade buscam incluir PCDs, raramente há iniciativas que olhem para esse cruzamento. As mulheres com deficiência continuam sendo as últimas a serem lembradas, e as primeiras a serem descartadas. Falta formação nas lideranças, falta empatia nas seleções, falta escuta ativa nas construções de ambientes inclusivos.
Mas há esperança. Há mulheres com deficiência rompendo o silêncio, ocupando espaços, construindo redes de apoio, empreendendo, liderando movimentos e exigindo que suas vozes sejam ouvidas. O que elas pedem não é privilégio — é oportunidade justa, respeito e visibilidade. É preciso que a inclusão deixe de ser apenas um termo bonito em relatórios e comece a ser um compromisso real, que enxergue todas as mulheres, em todas as suas formas.
Falar sobre mulheres com deficiência é uma urgência ética e social. É reconhecer que o futuro só será verdadeiramente inclusivo quando ninguém mais for deixado para trás — principalmente aquelas que sempre estiveram à margem do olhar coletivo.
