Entre o “não é sua filha” e o “só você resolve”, nasce uma outra forma de maternar
inha maternidade não veio com ultrassons, nem com chás revelação ou palpites de família. Ela chegou numa mensagem de WhatsApp da própria Sophya em fevereiro de 2022, me pedindo para morar comigo. Passado o susto, os comunicados aos pais e à avó paterna, ela veio dias depois e foi aos poucos ocupando um espaço inteiro em mim.
Ser tia da Sophya, no meu caso, foi só o título oficial, porque o exercício diário sempre foi outro: presença. Entre uma pauta e outra, aprendi sobre febres, sobre desenhos animados repetidos à exaustão, pedidos insistentes e sobre como uma pergunta simples pode desmontar qualquer adulto desprevenido.
Descobri também que cuidar é um verbo sem manual. E que amar alguém em formação é aceitar revisitar a própria infância, inclusive aquelas partes que a gente jurava resolvidas e que foram até doloridas.
Não pari, mas pari versões melhores de mim. E, convenhamos, isso também dá um trabalho danado, precisei trabalhar essa questão na terapia, sério, vivenciei momentos delicados, mas, quando converso com outras mães, vejo que é tudo normal.
Há dias em que sou porto seguro. Em outros, sou plateia, motorista, enfermeira improvisada e até vilã quando digo “não” com firmeza. Diga-se de passagem, essa parte do não é muito tranquila para mim, na verdade fico achando, às vezes, que é fácil porque não pari… dá-lhe terapia!
Porque maternagem é isso: um equilíbrio delicado entre acolher e preparar para o mundo. E o mundo, sabemos, não vem com filtro suave. Ser essa referência afetiva é entender que vínculo não depende de genética, mas de repetição: estar, voltar, insistir.
Como é gratificante ver que ela descobre tanta coisa através do meu olhar, da minha versão, sinto vontade de ser um ser humano cada dia melhor para oferecer mais à ela.
Eu procuro construir memórias que não aparecem em exames, mas que sustentam alguém por uma vida inteira. Talvez a maior liberdade dessa maternidade seja justamente não precisar caber em rótulos. E, no nosso caso, essa relação está muito bem definida, eu exerço a maternagem para a filha que Deus me deu, mas os pais dela são presentes e eu prezo que eles tenham momentos de qualidade juntos, em prol da saúde mental da Sossô.
Tem um detalhe muito importante que trabalho na minha cabeça, entendo que estou criando-a para ser o que ela quiser, com as melhores condições que eu posso, mas que as escolhas dela no futuro serão individuais, que ela é livre para voar, faço questão de lembrá-la do quanto é bom tê-la em minha vida, do quanto ela é importante para mim e que me sinto privilegiada em poder cuidar dela.
No fim das contas, o que fica não é a origem do laço, mas a coragem de mantê-lo vivo. E isso, convenhamos, já é um trabalho de tempo integral com direito a horas extras no coração.




