
Dra. Ana Carolina Xavier fala sobre o papel da Medicina de Família e Comunidade
A consolidação da Atenção Primária à Saúde (APS) como eixo organizador dos sistemas de saúde tem sido amplamente respaldada por evidências científicas internacionais e nacionais. Diversos estudos apontam que sistemas estruturados com forte presença da Medicina de Família e Comunidade (MFC) apresentam melhores indicadores de saúde, ampliam o acesso ao cuidado e reduzem significativamente os custos assistenciais. Nesse contexto, o médico de família e comunidade atua como um dos principais articuladores do cuidado, acompanhando pessoas e famílias ao longo do tempo e considerando não apenas a doença, mas também fatores sociais, culturais e ambientais que influenciam o processo saúde-doença.
Pesquisas recentes comprovam esse impacto. Um estudo publicado na BMJ Open (2024/2025), realizado em Belo Horizonte, mostrou que equipes com maior proporção de médicos com residência em MFC reduziram em 11,89% as internações por condições sensíveis à atenção primária. Os custos hospitalares também diminuíram em até 10,6%, gerando economia relevante para o sistema.
Segundo Dra. Ana Carolina Xavier, subsecretária municipal de Atenção Primária, médica de família e comunidade e mestre em Saúde Pública pela Fiocruz, o profissional dessa área atua na principal porta de entrada do sistema de saúde, acompanhando as pessoas ao longo da vida e construindo relações duradouras com os pacientes. “Na atenção primária, os pacientes procuram nossos serviços quando surge algum problema ou quando optam pela prevenção. É um vínculo que se constrói ao longo do tempo, de consulta em consulta”, explica. Essa continuidade também permite organizar o percurso do paciente dentro do sistema de saúde. “Quando há necessidade de outros especialistas ou serviços, a equipe de atenção primária coordena esse processo, garantindo que o paciente se mantenha acompanhado pela unidade de saúde”, acrescenta.
No dia a dia, esses profissionais lidam com demandas variadas, desde condições agudas até doenças crônicas, além das particularidades dos diferentes ciclos da vida, como gestação, infância e envelhecimento. Nem sempre, porém, o adoecimento tem origem exclusivamente biológica. “Aquilo que aparece no corpo muitas vezes expressa sobrecarga de trabalho, conflitos familiares ou outros sofrimentos da vida. Por isso também fazemos uma abordagem familiar e comunitária para compreender melhor o contexto do paciente”, afirma.
Quando a atenção primária está bem estruturada, os efeitos se refletem em todo o sistema. Experiências internacionais reforçam essa evidência. Países como Inglaterra, Canadá e Portugal possuem sistemas fortemente baseados na atenção primária, enquanto, no Brasil, a Estratégia Saúde da Família é considerada uma das maiores iniciativas desse modelo no mundo. Algumas cidades também se destacam, como Florianópolis, referência na formação de médicos de família, além de Fortaleza e do município do Rio de Janeiro, que apresentam avanços importantes na organização da rede e na ampliação da cobertura assistencial.
De acordo com Dra. Ana Carolina Xavier, fortalecer essa área é uma decisão estratégica para o futuro da saúde pública. “Produzir saúde é um desafio coletivo e político. Depende de escolhas que priorizem a redução das desigualdades e o cuidado contínuo das pessoas, das famílias e das comunidades”. O fortalecimento da Medicina de Família e Comunidade representa, portanto, um investimento inteligente em um sistema de saúde mais preventivo, humano e sustentável.
