Médica explica o que é o Transtorno Opositor Desafiador (TOD), que vai além da teimosia e pode afetar a convivência familiar e escolar
Quantos pais já não tiveram a sensação de que o filho tomava determinadas atitudes apenas para desafiá-los? Quem nunca presenciou uma criança tendo comportamentos impulsivos e teimosos, demonstrando irritabilidade até mesmo em situações pequenas do dia a dia? Pois é. Em determinados casos, é normal que crianças e adolescentes não consigam lidar muito bem com negativas e frustrações. Mas, em outros, esse cenário pode ser um indicativo de Transtorno Opositor Desafiador (TOD). Você já ouviu falar dele?
Quem nos ajuda a esclarecer esse tema é a médica pós-graduada em Psiquiatria da Infância e Adolescência, Saúde Mental e Atenção Psicossocial, Neuropsicologia e Gestão em Saúde Pública, Dra. Maíra Mattos. “No consultório, os relatos costumam começar com um suspiro de exaustão. Pais e educadores descrevem um cenário de guerra, onde o campo de batalha é a mesa do jantar ou o pátio da escola. O Transtorno Opositor Desafiador, popularmente conhecido pela sigla TOD, é frequentemente mal interpretado como um desvio de caráter ou uma falha na educação. No entanto, como médica, meu papel é desconstruir esse estigma e revelar a complexa arquitetura neurobiológica que sustenta esse comportamento. O TOD não é uma escolha consciente da criança em ser ‘má’; é uma dificuldade crônica em regular o humor e processar a autoridade”, relatou.
Diferente daquela teimosia comum que faz parte do desenvolvimento infantil, o TOD se manifesta como um padrão persistente de irritabilidade, discussões excessivas com figuras de autoridade e uma resistência, às vezes física, em seguir regras, conforme prossegue Dra. Maíra. “O diagnóstico é um processo delicado e puramente clínico. Os transtornos na infância frequentemente não viajam sozinhos. É comum que tenhamos outros transtornos em comorbidade ou outros transtornos puros, que se manifestam aparentemente de forma parecida. Identificar com precisão um transtorno e se há ainda outras comorbidades é o que separa um tratamento bem-sucedido de um frágil plano terapêutico”, ressaltou.

A abordagem, por sua vez, exige um olhar mais amplo para o transtorno. “Se olharmos apenas para o comportamento desafiador e ignorarmos a angústia que o alimenta, estaremos apenas tentando apagar um incêndio jogando lenha na fogueira. O tratamento eficaz exige uma abordagem multimodal: não basta medicar o sintoma se não reestruturarmos o ambiente familiar desta criança. O caminho para o equilíbrio passa pela psicoeducação, pelo treinamento parental e algumas vezes terapia medicamentosa, onde os cuidadores aprendem a substituir o confronto punitivo pela conexão estratégica. Precisamos ensinar a esses jovens como nomear o ‘vulcão interno’ antes que ele entre em erupção, ao mesmo tempo em que oferecemos limites claros, mas previsíveis, afetuosos e possíveis”, disse.
Outro ponto importante, como lembra a médica, é observar a individualidade da criança, fator essencial nesse processo. “Quando compreendemos que o desafio é um sintoma e não é um defeito, conseguimos transformar a energia de oposição em uma poderosa força de liderança e determinação. Afinal, o objetivo da saúde mental na infância e adolescência não é quebrar a vontade de uma criança e deixá-la como um robô em série, mas ajudá-la a construir o controle necessário para que seja a melhor criança/adolescente que ela possa ser, com todas as suas peculiaridades e com o menor prejuízo para seu bom desenvolvimento físico e mental. Se você convive com esse desafio, saiba: o diagnóstico não é um veredito de isolamento, mas o mapa que finalmente nos permite traduzir o caos em conexão”.
