Em 14 de março, o Brasil celebra o Dia Nacional dos Animais, data dedicada a sensibilizar a população sobre os cuidados que devem ser dispensados às espécies domésticas, silvestres e exóticas. É um momento para conscientizar a sociedade sobre o respeito à vida animal, buscando reduzir os números de abandono e maus-tratos, além de fortalecer a prevenção de doenças.
Um dos problemas de saúde pública que mais preocupam atualmente, inclusive, é o aumento expressivo de casos de esporotricose. Trata-se de uma zoonose provocada por fungos do complexo Sporothrix spp., que acomete principalmente gatos, além de outras espécies de animais, e pode ser transmitida ao homem.
Esses fungos habitam lugares como solo, palha, vegetais e madeira, o que explica a alcunha de “doença do jardineiro”. A infecção ocorre por meio de ferimentos com materiais contaminados, como espinhos e farpas, ou por arranhões e mordidas de animais infectados, principalmente gatos. A esporotricose causa sérias lesões cutâneas tanto em animais quanto em humanos, podendo evoluir para quadros mais graves se não for tratada precocemente. Animais com lesões nasais ou intranasais também podem apresentar espirros frequentes.
Nos últimos anos, a doença se espalhou por quase todo o país, com maior incidência no Rio de Janeiro. O Ministério da Saúde tornou a esporotricose de notificação obrigatória, e o estado do Rio publicou medidas de monitoramento e prevenção, incluindo uma campanha permanente de conscientização. O abandono de animais doentes, a superpopulação de felinos de rua e a falta de castração e cuidados veterinários contribuem para a disseminação da zoonose.
Em Campos dos Goytacazes, a Professora Doutora Adriana Jardim de Almeida coordena, na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), o projeto de extensão “Esporotricose em Campos dos Goytacazes: Diagnóstico, Controle e Prevenção”, que vem realizando uma série de estudos e pesquisas relevantes sobre o tema.
Segundo Adriana, o projeto contempla o atendimento gratuito aos animais com suspeita, exames e acompanhamento, por meio do Hospital Veterinário Sadi Bogado, que integra a universidade. Já os tutores com lesões suspeitas são encaminhados ao Centro de Saúde Escola de Custodópolis. “No ano de 2025 foram confirmados 322 diagnósticos positivos, sendo 14 em caninos e 308 em felinos. É importante salientar que nosso mapeamento detectou a presença da doença em 50 bairros e 3 distritos de Campos, além de municípios vizinhos, como Cardoso Moreira e São João da Barra, confirmando a expansão da esporotricose na região”, disse.

Adriana relatou também que a Universidade tem atuado em parceria com a UBS Pet municipal por meio do projeto “Esporotricose em Campos dos Goytacazes: uma questão de saúde pública”, vinculado ao Programa Mais Ciência, com apoio da Secretaria Municipal de Educação, Ciência e Tecnologia (Seduct), oferecendo atendimentos e exames gratuitos aos animais, com financiamentos também da PROEX, PAPIC/UENF e Universal CNPq.
Segundo Carlos Morales, diretor do Centro de Controle de Zoonoses, a esporotricose é grave, mas tem cura. “O tratamento dura em torno de seis meses. A Prefeitura de Campos fornece medicação gratuitamente aos tutores contaminados, via Secretaria Municipal de Saúde. Pelo CCZ, atendemos até 30 felinos por mês. A partir do diagnóstico, o tutor não deve manipular o animal sem luvas e deve evitar arranhões”, alertou.
Para a coordenadora do projeto, é necessário um trabalho educativo, a fim de que os tutores mantenham os animais em casa, evitando riscos de maus tratos, contaminação por outras doenças e envenenamento. “Outra medida importante é a implantação de um incinerador para os cadáveres dos pets que vierem a óbito por doenças altamente contagiosas, além da castração, sobretudo dos gatos machos, devido ao seu comportamento reprodutivo de disputa por fêmeas, que acaba configurando mais riscos de contágio”, salientou Adriana.
Mas ainda há outro agravante para esse cenário: muitos tutores, ao perceberem feridas no seu animal, optam pelo abandono nas ruas em vez de tratá-lo adequadamente com ajuda veterinária. Esse ato, além de reprovável, constitui crime (art. 32 da Lei nº 9.605/1998, com pena agravada pela Lei nº 14.064/2020) e contribui para a proliferação da zoonose. É fundamental, portanto, reforçar a conscientização sobre adoção responsável, castração, tratamento precoce e combate ao abandono. Proteger a vida animal também significa proteger a saúde pública.
